segunda-feira, março 25, 2019

Escrita em todas as faces da vida

Quando Joana escrevia, arredondava as letras o melhor que podia. A mão falhava-lhe, os olhos tremeluziam quando lá fora chovia, e a luz entrava, retalhada, pelos vidros foscos da janela da sala, obrigando a que se defendesse das lágrimas que lhe pareciam tapar a clarividência, e impedir que das pontas dos dedos saíssem sentimentos reprimidos. Sabia o que os reprimia. Conhecia o bichinho. Preferia não dizer o nome dele. Quando ele lhe subia pelo peito acima, e parecia querer sair pelos orifícios naturais que todos temos, escolhia sempre escrever. Arredondar os Os, estender os emes para que de uma folha branca nascesse, quem sabe, uma estrada de azulejos amarelos em que só ela pudesse andar. Um dia inventou um parceiro de azedume. Chamava-se João, para que até no nome fosse parecido com ela. Gostava de música clássica ouvida baixinho, de comer sopa de um dia para o outro, e de se sentar descalço à beira mar, esgravatando em busca de qualquer coisa que da água misturada com a areia pudesse sair.
Um dia, com o João até quis casar. O João planeou dar-lhe muitos filhos. Encaracolava os 'efes' de propósito, e misturava-os com 'esses' insinuantes, que se fechasse os olhos com a intensidade certa, lhe davam uma eletrificação nos lábios, dada pelo bem querer de um João que se habituava a sentir cada vez mais seu. Mas o João nunca saiu do papel. Às vezes, quando a calma tepidez do sol vinha lá pelos inícios das tardes, fazendo com que Joana se sentisse una com as folhas brancas que salpicava de redações irregulares, ele parecia quase ganhar forma. Entravam pela porta da cozinha insinuantes nuvens de um pó sem cor, que vistos do prisma certo, se arredondavam nas formas indecorosas de um ser humano cativante.
Nunca passou disso. Joana é hoje amiga do bichinho, porque parou de escrever. Dá-lhe uma tristeza companheira, e a jovem que um dia quase conseguiu fazer sair das folhas brancas uma criação carnal, com lábios reais, e olhos risonhos, e sentimentos carnudos como as faces de uma maçã, é hoje uma velha antes de tempo. Já não tem folhas brancas em casa.


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