domingo, 6 de julho de 2008

Fugir


Fugir, mas sem fazer com que me aperceba de cobardias adstritas. Aliás, sempre vi nas imposições de limites ao bater de asas, uma forma de conter abismos deleitados. Quase como se derrubasse uma ponte estreita, de palhota, entre o quase e o consumado, o impossível e a medalha de ouro, o escuro e a alva.
Conheci-me numa fase em que desdenhava que teria alguma vez futuro. Sentia-me surdo, e se alguma vez falei com o devir, tornei-me capaz de ignorar a lição de métodos que porventura tenha sido proferida. Vesti-me antes de sonolência, com um xaile de xadrez fortuito, que nem sequer já conseguia aquecer. Passaste por mim sem que eu te compreendesse, e frustrei em mim mesmo o que me pareceu um pedido.
Ainda vais a tempo de traduzir o refastelamento sintáctico que me pareceu ter percebido. Se calhar foi ladaínha. Provavelmente nem foi nada. O que restou? Sou incapaz de me dar de mãos vazias. Prefiro longos campos de trigo, com um vento inquiridor que, de sorriso de criança em riste, deixa na terra uma fenda igual a amor ensanguentado. Sobram pequenos resquícios de um conflito benemérito. Galhos de árvores sucedâneas do limbo, ninhos de pássaros que, indiscretos, explicam em linguagem pré-românica a diferença entre um segundo, e o outro.
Dá para ponderar a pouca estima que existe entre as pessoas que guardaram o passado em meias rasgadas. Envolve-as um fumo azul, medíocre, que eu nunca tive por nunca ter querido fazer da lealdade uma nódoa de pequenas dimensões, no quadro resoluto da existência.
Acabei. Fico-me pelo suficiente das coisas simples. Sem necessidade de fugir.

Louvar e frustrar



orelhas fechadas
ao vento alíseo,
o que toca
baterias em sinais
de espera,....

tudo preso à luz
que desprende
irritações da
terra adormecida,....

orelhas fechadas que
já nem ouvem o soturno,...

deixam-se ir no latejar
que a noite traz no ventre,
desmembrando intenções,
e a fazer dela
um lugar encomiado
e frustrado de silêncio....

sábado, 5 de julho de 2008

Jardim de mitos urbanos


o lembrar é um bicho sem
pés que pede escusa, de olhar
parcial condena recusas
de reconhecimentos totais
do que o passado é capaz de
fazer, usa poeiras necrófagas
para enfeitar memórias
autofágicas, enfeixamentos
de água que a água aprendeu
a desprezar, nunca pede muito
porque sempre foi incapaz de
se projectar na terra esteta, no
céu peganhento e assoberbante,
se se resta por nunca ter sido o
que efectiva o magnânime, o
lembrar escusa-se, recusa-se,
aninha-se.....

Fogo fátuo



o dizer assim-assim do fogo,
que dá para ler a noite,...

mandrágora do espaço vazio,
das bocas abertas,
que fazem recuar a sombra
para níveis de peito fechado,
com o ar queimado e que sabe
criminalmente mal,...

dá para descoser a luz
usando as bainhas mal feitas
do vórtice da existência,...

e o que resta,

perigosa opacidade,
onde o tempo arquitecta
a indiferença para,
para indiferenciar-te em
medidas draconianas,....

fim aromático,
final de cheiro a fumo,
dissolvências cor de sépia,
que na madrugada
jogam com as cabeças
que desistiram de alvitrar....

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pianto a Torino



....e lhe regou com lágrimas as
mãos feridas, que se enxugaram
em menos embalo
que o choro que as molhou....

Meninas de olhos de meninas,
são flores que empolcam,
mas com tanta força,
que o sudário que tapa,
sobe aos céus da contrição,...

hora de resignar choro
finto e engrumado,
se me lembro de chofre,
foram lágrimas de sangue
as vertidas em momento de
enxovalho e resiliência....

....e te pedi para regar
mãos invertidas,
falhaste,
agora resigna-te num cómico
e abominável fim de tarde....

Matança do porco



sinto a pele a esticar,
curtida,
abusada,...

zurra porco,...

o tal suíno que
do mundo dos porcos
mais mata e esfola
para depois chorar
inocentemente aos pés
da santa desvirginada,....

a minha pele,
que habita
apetites insalubres
há séculos,

rompeu,...

forma,
vara,

grunhe, chia,

deforma,
informa as multidões
com espírito
de espírito aberto,

para pele de fel,
resta o que cria,
mas não queria,...

o que deturpa,
mas até educa,...

esfolado,
quedo-me abusado,...

mas inquieto....

Pelo menos sou são IX

felizes,
muitas perdizes,
miram o sono,
do par,
de olhos,
que dorme,
sem fome,
de descanso,...

fá-lo,
no falo,
de campo virgem,
com sol de formol,
e reuniões,
com paixões,...

fadas derreadas,
pelo friso,
de amor em gel,
que em olhos,
não diz repolhos,
de uma vida,
que já estia,....

felizes,
menos perdizes,
voo assuão,
e no chão,
fica a raiz,
do que acordou,
tarde,
sem albarde,
para a vida,
menos revestida....

#VIII, #VII, #VI, #V, #IV, #III, #II, #I

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Estou chateado, e provo-o....


Escrever, para menos que viver. Será esse o antídoto certo para quem ilude o acto de criar, com o simples acto de viver? Mas será que resta alguma ilusão por descrever? Menos certo que o amanhã vir adocicado, é o hoje que somos obrigados a consumir amargo. Com todos os requintes de envolvência medricas que sublinham, a negro, os detalhes insignificantes da nossa vida. Aliás vida que, a existir, morre logo no dealbar de uma existência desnorteada.
Para informação coerente, que fique registado a minha opinião pessimista. Nem sequer penso chegar a qualquer das ilusões poéticas que já criei. Não passo de indecisão. Como o próximo, comisero em doses irregulares. Interrogo o que nunca se justificaria interrogar, e no fim ganho o som agudo da flatulência indiscreta de um sonho discriminatório.
Sinto-me perseguido, angustiado, massacrado pela irregular torrente de paranormalidades que nos atacam diariamente. As nossas vontades estão presas ao chão, porque nunca se conseguirão soltar do agrilhoamento efectivo. A escola, tirei-a com a certeza de que no fim ‘orientei’ um mapa para me orientar na displicência que é estar vivo.
O mundo borrifa-se para a plena realização do homem, porque o homem nunca existiu. A felicidade é a prova disso. Estamos felizes, na mesma medida em que o apetite da morte sabe bem a um canceroso em fase terminal. Jesus foi prova disso, porque Cristo é o apelido dos inexistentes. Dos falhos de espírito. Figuras ridículas somos nós, com capa de gordos, magros, pobres, ricos, gays, fodilhões, lésbicas vedetas de televisão, velhas com mini-saias e tatuagens. Tudo são soluções para problemas que recalcitram o nosso viver. A morte poderá ser um acrescento à indecisão. Mas no fim, a emoção deve morrer aconchegada, em noite de chuva ácida.
Só nos resta mesmo um mícron de pedantismo, para que a envolvência do desvanecimento, seja um quadro surreal com assinatura descompassada....

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Copernicamente falando


cair,
caído,
flectido,
impossibilitado,
cardado Sol,

caiu,
descaiu,
furado céu,
desmontou,

o que elencado,
desdobrado,
e vociferado,...

nunca entabulou,
conversas,
avanços,
recuos,
memórias simples,...

menor substância,
para emendar,
títulos mal dados,...

somos o que fondo,
nunca aconteceu para bem,...
e mesmo que,...
caído,
flectido,
impossibilitado,...

cardado Sol,
é o que não nos resta,
em paralelo,
ao que ficando,
morreu,
de inanição....

Desunidos


monstros de faces com face,
dentro da própria vida,
não em homens libertos,
mas em situações absurdas,
com homens assoberbados, retardados,
por cumprir,


desunidos,...

são os sinais vulgares dos dias,
a vida a correr em torrente,
e por infelicidade de mais gente,
sem notas que satisfaçam...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pelo menos sou são VIII

Delapidado,
Desfeito de mim,
Se as tuas mãos que morrem,
a um reflexo das minhas...

Olhos maioritários de sentido,
olhos teus,
a morrerem nos meus,...

O quebranto grita por soltar
o que sempre afrouxou na tua pele,...

E a pensar,
no barbeiro que se dava,
à confissão alheia,....

Nada,
Seremos,
Talvez porque,
Saudade,
Sempre foi,
as ruas que foram...
nossas,...

Falta o ar,
para recostar,
nos apoiar,
em recantos próprios,...

Lascas ameaçadoras de aldeia,
a contar da curiosidade,
rasgada
de criança,....

Fruí,
Sim olhei o jasmim que te dei,
Odor de saber porque sim,
Porque as flores choram à noite...

#VII, #VI, #V, #IV, #III, #II, #I

Espelho


Já que curiosamente sou o que menos tu esperas encontrar onde nunca exististe. Desfolhei-me em coisas que sobreviveram ao rigor dos desvanecimentos de ti. Passaram quantos dias desde que a sombra sumiu? Aprendi entretanto a não ficar só, porque a vida rompida és tu, sem nunca sequer teres pedido licença aos frutos existenciais da vida desmultiplicada. Quando digo fica, ficas. Quando não digo vai, tu ficas à mesma.