sábado, 27 de junho de 2020

Segunda pele


não faças caso desta segunda pele,
o que cobre os meus olhos já
escorreu de gerações anteriores,
dos que morreram próximos da vida,
e viveram sem que a profissão de fé,
lhes desse o que comer e chorar,....

acomodar-nos à sombra recortada
com a nossa medida,
é uma arte que exige prática,
acostumo-me a defendê-la,
e talvez assim,
de mim se faça um repositório
de experiências,
anotações,
aquilo que o passado
em mim deixar, 
como uma segunda pele

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Fragilidade

Quem dorme com a minha fragilidade,
Quem foge da minha cama,
Não há solidão pintada de leste,
Ar respirável,
Quartos vazios,...

Sentia-te refletida como se não houvesse direções,
E o teu real representasse as costas da minha dor,
A lágrima que pintávamos,
Sem que houvesse volta,
Nem silêncios súbitos


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Um dia gostava de saber escrever assim

rui costa / ao lado




Há nomes que assustam os insectos

e nas folhas deslumbram a casa até quase

noite. As asas batem a penumbra

mas a história dos dias nunca

lhes pertence.

Em pontas de pés esfregam-se nas janelas

com os bicos postos

e só a tempestade lhes garante o sono

e a salvação.

Eu conheço homens assim quando

o tempo acalma.

Têm mil bolsos preparados para esconder

as mãos.

Praticam os espelhos

Com esforço miudinho, quotidianamente

soletrando os amigos

muitas vezes.

E quando à noite se reúnem para fabricar os sinos

ouvem palavras com o seu nome voando

eternamente

ao lado




rui costa

«à solta no ringue»

mike tyson para principiantes

antologia poética

assírio & alvim

201

Limite conhecivel

Perguntavas que luz,
Sentia os olhos a desenhar o teu contorno insinuante,
Naquele,
Em tantos quartos,...

Passámos pelas terminações da sorte,
Por folhas e folhas de desejos irresoluveis em verso,
Sempre com a mesma pergunta,
Demandavas que luz,
A que te possuía mais que o notório desejo que deixei,
Embrulhado no meu cheiro,
Ao quereres-me fora do teu limite conhecivel

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Conteúdos teológicos


de bolsos vazios,
antes do que com a ideia
toldada,
se tem de se caminhar por
esta rua inocente,
que assim seja,....

não tenho já mãos para
fazer mais do que,
contar as indecisões,
repetir as frases rotas e
amolecidas,
e reunir tudo a aguardar
por um saco,
cheio de conteúdos
teológicos

terça-feira, 23 de junho de 2020

Valor do ar

só morre quem quer,
a frase estava dita, e era
impossível haver retorno da mesma,
não que importasse que qualquer
coisa experimental,
tomasse conta desta conversa,...

até podia incentivar as ideias
mais radicais,
e com sabor,
mas por si valia o ar
que se estava a respirar naquele momento,...

e não estava um dia
tão quente como isso
 
 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Lembro-me do calor

temos a juventude possível,
ao lermos a fronte da
especial dissenção de um
livro da idade média,
nada acontece,
lembro-me do calor,
das nossas peles pedirem
amor,
mas não haver coragem,
e muto menos pejo,...

até à próxima terra,
vislumbro a sociedade
fechada do desejo,
amiúde falham-se anotações
nesta rotina,
e talvez o tenhamos falhado,...

mas não interessa,
encerro na matriz
igreja nua do teu corpo,
tragicamente findo



domingo, 21 de junho de 2020

Escrita de seres gregários

Este tipo de escrita, a mesma que sempre nos tornou seres gregarios,
Pessoas que não se conformam com o ser indomito,
Analisado apenas numa dimensão do real,
E se aventuram como poucos nos intervalos das interrogações,
Construindo ali colónias de revoltas a dois,
Sociedades com classes que se esfumam em mesas vazias,
De versos sem sentido,
Pensados e só escritos por obcecados com a poesia,..

Este tipo de escrita fuma-se,
Sente-se até que os nossos pulmões se consumam em pecados difíceis de individualizar,
Optando-nos por as coletivizar,
Como imponderáveis sem sentido,
Que um dia se esfumam com o povo na rua a pedir,
Exatamente o contrário de tudo isto,...

Esta escrita renovou-me como ser indestrutível,
Até que venha o próximo princípio militar,
E me faça um princípio fácil de contestar,
E de anular



sábado, 20 de junho de 2020

Um dia gostava de saber escrever assim


Ruy Belo

Folia dos tolos


Depois do primeiro país,
as flores inocentaram a raiva
de querer um mundo inocente,
com pessoas afuniladas,
encaixadas na suspeita
primordial da luxúria,....

não me permito só estas
deambulações,
que de políticas e sociológicas
terão quanto muito,
o tom de voz,
mas é a lavar as mãos da hipocrisia,
que as coisas se podem
escrever conforme devem,...

ao fim do segundo país,
isto tudo acaba,
e não mais há
razão para a folia dos
tolos



sexta-feira, 19 de junho de 2020

Tenho nojo de chorar

tenho nojo de chorar,
não seguro a voz,
como hei-de contornar
os remoques de esperança
que perco por entre os dedos,
o suficiente para que me
desiluda como referência moral,
e objete a novos versos que
a maré me consiga trazer,.....

só me resta juntar,
papelinho a papelinho,
tecendo ideias em cruz,
até que o percurso por entre
as fases desta lua,
 termine quando eu queira,
e não por entre os silêncios
 deste exercício castrense de
precisão,
a que chamo experiência de vida,....

 por entre o lustro do que
tanto repito,
voltei aqui hoje
como a novidade de viver sem prestações,...

estagnado,
reaprendo a desfazer
nós destes cabelos sem voz


Calçadas de ungento

Eu ando por aí,
Espero que me ouçam,
Dissequem a verdade comigo,...

Enquanto as palavras devem estar a chegar calçadas de ungento,
Não mais para partirem como vento inútil,
Separem-me da voz que anota pequenos rabiscos na mentira,
E afugenta só as luzes do branco dos olhos das pessoas,...

Ouçam-me antes que seja tarde,
E ao limite das praias do saber só chegue a minha sombra infrutífera,
E desmarcada do medo