sexta-feira, 30 de maio de 2008

O padeiro e o pederasta



na rua iconoclasta,
sobem passos felizes,
desce o infeliz pederasta,...

que suou para fugir,
à biqueira do padeiro,
sem coração a bolir,...

vento que sobe, assobia,
e o pederasta recomeça,
até abrigar-se na alcobia,...

alva a fronte que lateja,
ensaguentada, indecisa,
com suave formol de carqueja,...

pesa mona de aço,
dedos de linho,
delicado pelo cachaço,...

pé, salto, pé,
padeiro voa do nada,
e o vento já cheira a café,....

se o tempo não pesasse,
a casa seria de aço,
sem desvario que redundasse...

Línguas



Línguas de prata que,
no meio de um mundo,
tempestade de mundos,
gigante universo,
acalentam dores,...

conheci-as protectoras,
lambendo no ventre da noite,
enquanto sons desemchabidos gotejam,.....

Porque aos pés de um palanque,
Num final de tarde de anseios,
Qualquer língua é prateada,
E todas as caras são de ouro,
E o poeta que descreve é insano,...
Pois acha,
Que o homem é meio homem,
E a história acaba,
com o cão aninhado aos pés da avozinha.....

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Pessoas que amam pessoas


pessoas que amam pessoas,
são as pessoas menos azuladas,
tomam banho, despem piloros,
têm hérnias quando comem tremoços,
e o mundo gira,
sem perdões incongruentes,
porque nem se importa,....

pessoas que desprezam pessoas,
choram com o fado mais brejeiro,
porque se importam,
querem convergências,
pulam com meninos simpáticos,
e depois,
assinam um cheque,
em moeda maldita,
para abater rebentos,....

pessoas que amam pessoas,
são bolas de naprons tricotados,
a balouçar nas patinhas de um gato,
para um fim que pede reflexão,
porque o mundo está pintado a lápis de cera...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Amor a Sul


arrotámos,
declinámos,
e recuperámos,
o que se perdeu,
à luz de pirilampos,....

anoiteceu,
gotas de vinho,
desiludiram,
o que esperámos,
do atavio,
da bonomia,
de ter,
a desdita,...

amálgama,
de aguadilha iluminada,
passado ácido,
limão na ferida,
que arde,
a arder,
e quando fere,
sara,
restabelece,...

desdisse-te,
e esperei retorno,...

bati-te,
a estalo,
e com mão de forno,....

saí luzidio,
com os astros,

mas restou,
de mim profundo,
um canto,
assomado ao vento,
com o restolho,
a arder,
e a alma,
seca palha,
de vida desflorada....

terça-feira, 27 de maio de 2008

Manifesto e uma quadra


O que é que podes ainda dizer que é teu? O pedaço de alma que sempre conservaste na pele, até isso caiu. Certo? Já se calaram os assuãos que, outrora, brotavam do teu coração. E deixaste de ser alegre, com aquela alegria de uma criança quando lhe dizem que gostam dela. Sabes de boas maneiras. Até te sentas do lado certo da mesa quando vais a um restaurante, dos tais piéce de resistance. E gozas com o waiter, dizendo que o mundo não nasceu para quem arrisca. Só para os que sabem esperar por aquilo que pretendem.
Já desapareceu o arco e flecha do teu lado belicoso. Deixei de ver aos teus pés, o Bufallo Bill assassinado após batalha gloriosa com os Sioux. Machetes de guerra que te viam, e que tu não escondias, onde estão? Respondes que a vida faz as rotundas pela esquerda. Que o Sol chora lágrimas de cal quente, da mesma com que se dá banho aos mortos depois de eles se despedirem de nós. Resumindo, a cobardia fez de ti uma bitch. Dás o esfincter, numa posição de pato assustado, e em troca recebes cautelas quentinhas. Tipo castanhas que saltam no crepitar do forno outonal do universo. Não tens o nada, que faz as pessoas explodirem em busca do tudo. E com certeza que também não terás o tudo, responsável pelo friozinho na barriga das pessoas realizadas.
Já foste capaz de matar à velocidade do som. Carregavas, pelo cano, uma escopeta imaginária que guardavas aos pés do sofá da sala. Bastava um violador escapar sem condenação à justiça da mais pequena cidade do interior americano, que tu fazias justiça pelas próprias mãos. Despedaçavas rostos finos. Homens de feitio aquilino saíam despedaçados às mãos do teu instinto de Charles Bronson de 1.º andar da Rua dos Passarinhos. Não contente, partias pescoço, e depois serravas o corpo em seis, para melhor o empilhar na bagageira da tua Renault 4L. Hoje, nem o rato que tem ninhadas de vermes à entrada do teu quintal, tu consegues matar.
Cansei de ver-te a confraternizar com o diabo dos irresponsáveis. Com um satanás velho, que mandria porque já se cansou de fazer mal, e está reduzido a tirar o olho de vidro da órbita esquerda, e dar-lhe lustro para parecer mais magnânime.
A ti, e a quem anseia por menos suavidade, eu respondo.
-Raio que os parta a todos!!!!
Cansei-me de esperar que os coitadinhos arranjem forças para mendigar pedacinhos de terra prometida, à luz de ideologias que promovem o desmembramento dos sonhos. O homem não é de iniciativas. O homem é social. O colectivo manda mais que o chico esperto que explora 100 chicos espertos, só para se tornar mais chico esperto.

a condenação da torção,
de pescoço do suez,
é menos que o chupão,
na pila do burguês....

sábado, 24 de maio de 2008

Declaração de ódio


Ofendo a terra,
Nem me perturba quando o faço, só...

que sim...

Sou homem para os montes,
Só, não estou,
eles que venham,
à minha ilha de breu,....

que sim...

onde rato a alma nua,
Mordo-a por ódio,....

Não deixo que decidam
pela decisão
Antes fosse
o orgulho,...

A paixão de odiar,
E o sentir cascalho,
De praia-baía,
Que sim
por mim...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sem título (32)

há o que se perdeu nos bolsos,
onde os trocos escorreram,
e ficou o vento de mirar fortuna,...

o espaço do que fosse rico,
encheu-se de pés tortos,
para caminhar só é pobre,

deixei por lá,
a voz de perder dolorida.....

Índio Joe a rir de Tom Sawyer


Tábua em nuvem de fumo,
Momento,
De índio magoado,
Com pele,
Sem erros,
A tossir,
Escarrar
Praguejar,
esperando da vida,
novo momento,
De feliz
citação....

A Rosa



Debaixo de uma rosa,
E o mundo feito de rosas,
Como fica à luz de pétalas,
Quando o sumo é de prosa?

Em cima de uma rosa,
Mundos lacrimejantes,
De escritores que usam glosa,
A limar terra punjente,...

Ao lado de uma rosa,
Acabo a imbecilidade,
De escrever muito com pouco,
Nos resquícios de uma cidade...

Velho em três estrofes



De velho por sinal,
Tem a mácula,
Costas em ‘éme’,
Nariz de cavadas,
E o mundo a mijar,....

É velho hesitante,
Figura subreptícia,
Na esquina embutida,
No bulício do mercado de almas,
Que papa traseiros,
Com garra pré-histórica em riste,...

De velho por sinal,
Com procrastinado desdém,
Diverte-se no pôr,
E fica-se à porta
da loja do fim...

Rosa e quem a vê


Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca.
Sem sal.
Incongruências que não há, quando se observa de perfil.
Salta à vista um golpe.
Não, dois.
Com certeza três.
Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula.
Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta.
E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente.
Observatório de emoções, não contundentes.
E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê.
Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar.
Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem.
A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado.
E Rosa vai voltar logo à noite.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Última noite



é a última noite
de todas as noites que nascem
porque o dia quer,
e por a chuva bater,
leio,
através das grades,
a dor nas pedras da calçada,
e o latejar de uma rosa moribunda
que não resiste ao frio,
cubro o quente,
no lixo,
na fome,
sem voz,
Mudo, mudo,
só como a morte é capaz de ser muda,
e eu só, aquecido,
praguejando, suspirando,
por mais uma última noite....