HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954) Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza, azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar. Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo. (No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia vive numa mina, de dia e de noite. Ali, onde o único sobrevivente pode estar junto ao forno da Aurora Boreal escutando a música dos mortos de frio). *** A ÁRVORE E A NUVEM (1962) Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva, com pressa, ante nós, derramando-se na cinza. Leva um recado. Da chuva arranca vida como um melro ante um jardim de fruta. Quando a chuva cessa, detém-se a árvore. Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras, à espera, como nós, do instante em que flocos de neve floresçam no espaço. *** DESDE A MONTANHA (1962) Estou na montanha e vejo a enseada. Os barcos descansam sobre a superfície do verão. «Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.» Isso dizem as velas brancas. «Deslizamos por uma casa adormecida. Abrimos as portas lentamente. Assomamo-nos à liberdade.» Isso dizem as velas brancas. Um dia vi navegar os desejos do mundo. Todos, no mesmo rumo – uma só frota. «Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.» Isso dizem as velas brancas. *** PÁSSAROS MATINAIS (1966) Desperto o automóvel que tem o pára-brisas coberto de pólen. Coloco os óculos de sol. O canto dos pássaros escurece. Enquanto isso outro homem compra um diário na estação de comboio junto a um grande vagão de carga completamente vermelho de ferrugem que cintila ao sol. Não há vazios por aqui. Cruza o calor da primavera um corredor frio por onde alguém entra depressa e conta como foi caluniado até na Direcção. Por uma parte de trás da paisagem chega a gralha negra e branca. Pássaro agoirento. E o melro que se move em todas as direcções até que tudo seja um desenho a carvão, salvo a roupa branca na corda de estender: um coro da Palestina: Não há vazios por aqui. É fantástico sentir como cresce o meu poema enquanto me vou encolhendo Cresce, ocupa o meu lugar. Desloca-me. Expulsa-me do ninho. O poema está pronto.
Tremelicava o pulso. Gostava de o fazer, mas arredondando a situação de forma a que ninguém reparasse. Era uma nova velha, ou uma velha com tiques de nova. Gostava ainda de se chamar insuficiente desculpa de ser humano com quem nada se pode conversar. Era pendurada nas situações menos claras que este sentimento criava, que passava as noites. Abraçava-se ao picotado do escuro, sempre com o pulso a tremelicar. Se não o controlava, arrastava-se no turbilhão que a situação proporcionava.
Amanheceram-se assim várias coisas, em desabrochar de céus azulados. Era um carro que conduzido pelo frustrado da terra tentava não morrer a meio da subida. Pela berma da mesma estrada, procurava-se qualquer coisa pelas pernas de uma velhota desgastada.E cá em baixo, dois petizes com cabelo desgrenhado mas olhos felizes como o desterro nos sonhos, chutavam uma bola em carcaça, insultando-se carinhosamente.
Apetece descrever tudo isto, mas ao mesmo tempo o silêncio, a cruel brutalidade do não dizer nada, talvez fosse a melhor forma de cativar atenções.De dizer às pessoas leiam isto, porque os sonhos são qualquer coisa que se assemelha ao som que se solta assim. E parecia ser isso que por aqui se respirava.
Se muitas coisas se desfizessem como parte daquele fogo lá do fundo. Consoante as situações. Mediante os pontos de vista de quem analisa tudo chorando pela futura desilusão dos segundos atrasados que, juntos, não fazem nada mais pela tua vida. Aposto que ao decifrar tamanha confusão, conseguiria desfazer primorosamente tudo o que me dás como garantido.
Talvez sejamos aquelas duas mulheres que em ziguezagues se expressam andando, como uma só. Em dois pés. Com dois corações. E com uma cara redesenhada a sangue quando te toca, deixando-te para trás sem respostas a nada que verdadeiramente importe. Não me resumas nada sem ser desta forma. Apelando a minuciosas interpretações do singelo. Da fraudulenta visão que temos do mundo. Conforme o escrevemos, mais ele se esvai no invisível....