sábado, 27 de junho de 2026

Como um verso bonito,...

 Era preciso. Não se dizia. Nao se sentia. So se achava necessário que a água fosse cantada todas as noites naquele local. O processo era simples. Não restava muita gente por ali, e as pessoas que escolhiam ali acabar os seus dias, viravam se para dentro. Sem desejo, nem expetativas de nenhum tipo. Assim, impunha se que precisassem uns dos outros, através do olhar. A entoação deste laudo inesperado, que todas as noites mudava, para no fundo se manter igual, era monocordica. A água amava se, como se um órgão sexual de mulher se tratasse. Como um verso bonito, antigo de tão contemplativo. Uma cantiga que, junta à alegria esporádica de quem ali a cantava, subia nos céus, com um destino semelhante à condensação da água das chuvas...

Dorothea Lange
'Paul's hands'
(1957)
                                                                          Tirado daqui

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