fevereiro 17, 2019

Até que....

Esta seria uma narrativa calma. Com pontas refrescadas, crianças a sorrirem enquanto brincam ao desejo de crescerem juntas e em comum desejo de felicidade. Sol a brilhar num dia de calor afável, que massaja a pele e solta as feromonas necessárias para a que o dia acabe com um sentimento de partilha que faz a existência humana ser produtiva. 
Mas não vai ser. 
Há ansiedade num encontro de duas pessoas. Uma assegura, com um discurso incorreto e transpirado, que acha já não ter nada a perder. Não quer dizer o nome, pensa que andará pelos 50, mas não tem a certeza porque deixou de contar a idade no dia em que assustou duas meninas imberbes ao dizer que tinha acabado de fazer 20. Usa roupas largas, de padrões disformes e cor ruçada. Acha que já foi marxista, mas depois desiludiu-se com a inerente vontade do ser humano em consumir. É solteiro, segurança de profissão, gosta de bicas escaldadas e torradas aparadas, tomadas em cafés de mesas com tampos sujos, e sem televisão. Prefere ouvir rádio, com um som sujo, cheio de interferências, mas que lhe faça recordar a infância, e a quentura daquele ambiente controlado de que tanto sente falta.
Está sentado num desses cafés perante uma mulher. Usa cabelo curto, muito curto para mulher. E as palavras quase que lhe prendem qualquer veleidade de rebeldia, tolhendo-lhe o pensamento e o discurso solto. Também não quer saber da idade, mas neste caso por abominar a perspetiva da morte. Traz uma mala preta, com a alça quase a descoser-se devido à idade indefinida do cabedal. Deixou em casa a mãe moribunda, com um cancro que lhe rói os ossos, e a solidão de saber que terá, ela própria, de esperar pela morte. A filha anda desorientada, e procura não se sabe muito bem o quê. 
Já conheceu o calor de ter alguém à espera em casa. Foi há muito tempo, e quando acabou, o tempo estilhaçou-se em mil bocadinhos, que nunca mais se deixaram apanhar. Está ali para não sabe o quê. Talvez para o melhor. Mas espera sempre o pior. Não consegue deixar de ser pessimista, e pensar que terá de sair dali como entrou. Com um bilhete para o regresso aos dias sem corpo.
Ele tomou a iniciativa. Falou do dia que tinha acabado de nascer. Parecia promissor, apesar de duas gaivotas insistirem em fazer círculos imperfeitos no céu, e trazerem a ideia desnecessária de que a tempestade poderá chegar a qualquer momento. Ela respondeu com um esgar de olhos de aborrecimento. Quem a conhecia, sabia que franzia o sobrolho sempre da mesma forma, quando queria estar em qualquer lado menos ali. Ele percebeu. Pediu qualquer coisa de beber. Sentia que estava num ambiente controlado. Ia aquele café de vez em quando. Os tampos das mesas já tinham perdido a cor, e ganhavam sujidade encardida a cada dia que passava. No ar um som feio, secundado pela velhice de todo aquele ambiente.
Ela sentia-se desconfortável. Pensava em voltar aos dias de sempre. Disse que tinha de ir a um sítio, falar com alguém por causa de qualquer coisa. Ele estava quase a desistir, até que pensou em falar que gostava de retirar sentido à vida, escrevendo. Mostrou-lhe a sebenta que tinha sido do avô, escrita em todos os cantos, na capa e contracapa. A tinta já esborratava. Disse que adorava pequenos poemas. Coisas sem sentido.
Ela olhou despreocupada, sem interesse. Pediu muita desculpa, e levantou-se. Saiu para a rua, virou à esquerda, e começou a descer a rua. Ele ficou indolente. A olhar para o vazio. Pensou que se deveria estar bem à beira-rio, aquela hora...



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