sábado, 21 de fevereiro de 2026

Nos nossos atos,..

 Não há um sítio exato para nós,

Pedem que sejamos referências,

Que deixemos que chova nas nossas palavras,

Nos nossos atos,....


E resta assim que nos amemos,

Sim para resolver o que parece incerto,

A respiração irregular,

O ter corpo sem ter,

A pertença em sítios que não estão nos livros,

Amemo-nos,

Corpo com corpo,

Livro com livro,....


Imperfeições no chão sujo,

E deixar que chova,

Seremos um do outro e para os outros assim

Spirited away
De: Hayao Myazaki (2001)
Tirado daqui

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

E a psicose de duvidar,....

 e se fosse assim,

dois a dois,

 um coração farto de ler,

 olhos que persistem em bater,

um livro que se escreve sozinho,

sem o personagem oval,

que caiu do muro,...


e se fosse como sonhamos,

a prova dura de um multiverso,

realidades e realidades

que não se explicam,

sentem-se e debitam-se,

com a ferocidade de uma

tareia dada por vergonha,....


e a psicose de duvidar,

esquecer tudo,

duvidar tudo,

até que o olhar aceite regressar


Bothersome beast
Comforting friend

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pele

 Uma mão deformada,

Derme, epiderme,

Da hipoderme vem,

O osso retorcido,….



querer mutilar,

Deixar marca de um ódio,

Sem idade,

Transcrito com caligrafia trémula,

Desnecessária,….



e somos os sem idade,

Os que ficam da conversa,

Para que,

O ódio regresse,

De outro ponto deste,

Mundo retorcido

André 3000 e Kate Moss para a revista Rolling Stone (2004)
Fotografia de Mário Sorrenti

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O gosto pela escrita

 Eu gostava de escrever. O apelo estava lá, independentemente da hora do dia, da disposição. Das experiências que ia adquirindo à medida que vivia uma vida de escusa a obstáculos. Mas deixei de gostar. Preferia agora fazer tostas. Experiências diferentes, eu sei. Não me perguntem porque deixei de querer criar. De pôr personagens à frente de rotinas desnecessárias. Simplesmente aconteceu. E agora sinto que não consigo mais voltar atrás. Contento-me em sentir o pão a queimar. A evitar fios escuros de monóxido de carbono a sair de torradeiras. E muitas vezes a deitar fora verdadeiros pedaços de carvão, que outrora foram irregulares porções de trigo ou centeio, que tinham passado por um forno, algures, antes de chegarem às minhas mãos. Não tostava para ninguém. Resolvi faze-lo apenas para mim. Apreciava o momento de solidão, como já disse. A escrita, apesar de ser um ato puro de contrição, atira-nos por essência para os braços do mundo. Ao contrário de tostar. É pessoal, intransmissível. Banal, com todo o sentido de vulgaridade que isso traz. E agora, acho que ficarei por aqui até, se calhar, me cansar disto...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Os de amigos imaginários,....

 Às vezes há abraços,

Os de amigos imaginários,

Os que me dizem quando chove,

E se soluça tanto por ausências que nem entendemos,....


Às vezes esses abraços inocentam,

Os culpados,

Quem espera atrás de portas por simples desenhos de amor,....


E agora,

Que sei isso e me apercebo da falibilidade de demonstrações como estas,

Vou terminar os contornos do melhor abraço que souber,

Terei de o desenhar para sair perfeito

Fireflies
De : Emanuela Cau
Tirado daqui

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Traços tremidos

 

De:Ride,  ride now
                             Tirado daqui

Se me faz mal,
A pele condói-se,
O gato não sai da cama,
A roupa encharca para lá do razoável,...

Não gosto das notícias,
Mas também há coisas estranhas quando gosto,....

E faz-me realmente mal,
Nem o sei descrever,
Traços tremidos,
a voz arranhada,....

E não irei repetir,
Espero antes que o gato se levante

domingo, 15 de fevereiro de 2026

As gargantas nao irão secar

 As dores,

O que se desenha das dores,

A vocês meus irmãos,

Já não se servem cervejas frias,...


Chorem antes em silêncio,

E há o que se crava nas vossas costas,

Envergonhadas de chibatada e desprezo,....


E o que vos contaram é verdade,

Voa-se quando se tem de voar 

Encolhe-se o orgulho,

Finge-se notar a presença de um tempo que em si confunde,

Entristece até,....


E permaneçam assim entrevados no medo,

As gargantas não irão secar,

E as dores porventura nem vão prever novo tempo


                                                                          Tirado daqui

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Corres sem destino,....

 E vais correr,

Entre os desalinhados,

Os infindos,

As vozes estranhas,

As fugas a abraços indesejados,

A irritação de sons nasalados mal pronunciados,....


Corres sem destino,

Mais depressa que a verdade,

Que a mentira matada e morrida,

Saltas por cima de bocas,

Anuladas e outrora ferozes,...


E quase no destino,

Uma queda violenta,

A súbita presença notada da gravidade,

Trava-te a fuga,...


E a finitude do que desejas,

E podes esperar,

Ressurge escorreita

                                                                           Tirado daqui

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Eu sou findo,...

On the dune
De: Félix Tobeen (1914)

Os olhos que ardem,
A fé que desaparece,
Não deixam pena para um corpo vincado,
Desolado,....

Chamo-me silêncio por dizer isto,
Não tenho idade,
Inocento-me do pecado onde ele existe,
E os passos provam-no,
As dores de um corpo desaparecido,
Sublinhado,....

Espero por um novo tempo,
De livro aberto,
Receoso do vento,
E a esperar pelo fim dos mundos,....

Eu sou findo,
Indesejado,
Sem Deus e ansioso
 por novas loucuras

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

E saber de outros,....

 só posso assim,

abeirar-me do que frutifica,

dizer de uma ideia tantos contrários,

do contrário do ar

a noite em branco,

com o sofrimento que

nos vai queimando as extremidades,....


e saber de outros,

de tantos outros,

como nos odeiam,

nos desejam o

pouco mal que sabem

conceber,

e de mim exigem o mesmo

que conseguem dar,....


o pouco,

nada mesmo

que se escreva


                                                                     Tirado daqui

De: On the beach at night alone (2017)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

É o caminho que se me fez,....

 Desci das palavras sonhadoras,

Havia um peito a doer,

Dois olhos sonhadores e descontrolados,

E o corpo dorido mas experiente,

Capaz de experiências que se explicavam a si próprias,...


A espera,

O que o tempo me dava sem critério,

Tinha pessoas dentro,

Analogias de passados díspares,

E futuros sem nome nem idade,....


E o caminho que se me fez,

Tirava do céu nuvens desfeitas,

Que se me ofereciam como o alimento de uma vida,...


A forma como prosseguir,

Sabendo que no fim de um caminho discrepante,

Estariam os que já tinham estado das outras vezes iguais a estas,

E agora esperavam por mim

                                                                Tirado daqui

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A eles,...



Vêm os homens,
Esquecidos e permissivos,
Os homens da política,
Dos escândalos descontrolados,....

Os homens sem vínculos,
Que a poesia resolve,
Homens de cor e transparentes,
Choros de décadas traduzidos em hipocrisia,....

A eles,
Os homens de roupa justa e sem preço,
O mundo que se vergue,
Porque um dia o armagedao surgirá,
Nu e de presilhas,
E os homens estarão,
Em sítios e planos que não se conhecem 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Faça sopro sem sol,..


Patchwork - Hannah Streefkerk.

que diga adeus,
sucumba de morte
desejada,
mas nunca morrida,...

tenha pernas,
corpo de mulher
esquecida,
faça sopro sem
sol,
e uma sombra
aquecida com o frio,
restante do princípio
cataclísmico da última manhã,...

que ela saiba esquecer,
envie coleções de noites
ocultas,
pelo ar infundado e
permitido,
porque ela volta
sempre,
o adeus nada faz
dela,
como buraco sem fundo




domingo, 8 de fevereiro de 2026

Tudo se resume a um gesto,...

 A loucura,

Um prato assim de comida fria,
E dizer-te como as verdades se desenham jovens,
Com a recusa violenta que o tempo passe por elas,....

Dize-lo com gritos incendiários,
E sem roupa,
Ou pelo menos com uma nudez encapotada pelo pudor da velhice,
Encastrada e insubmissa,...

Tudo se resume a um gesto,
O toque possível,
O dizer que se conhece e partir sem olhar para trás,..

Isto é loucura,
E digo-o com a virtude a
pulsar nos bolsos
                                                                           Tirado daqui

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Medo....

Estava a ouvir a minha mãe. É difícil, porque ela já nem viva está. Mas juro que sim. A voz arranhada, maltratada pela doença. A  carinhosa com que sempre me acompanhou, e nunca me deixava ficar mal. Sentia-a acariciar-me o rosto, com os dedos de pele mediamente áspera que eu sentia como conforto. Falava-me da ingenuidade. Do sol por entre as cortinas da sala, e de como ele recita poemas, se lhe pedirmos educadamente.

Eu sei que ela já cá não está. Mas ainda me agrada. Ainda me conforta. Ainda me acalenta as saudades, como um bichinho normal que até devemos deixar que nos roa.



A mão resvala,...

 E reincide,

Agnóstico,

Molhado em suor,

Maduro,

O desejo de te desenhar,...


A mão resvala,

A vista falha na confiança,

Mas será um traço tratado,

Firme e musical,....


Com o corpo azulado,

Olhos escuros 

antes da cor surgir,

E alma,

Deitada,

A ler Baudelaire,

A espreitar a madrugada,

Mas lá,....


Ao custo indefeso

 do toque 


                                                                  Tirado daqui

Daniele Huilet e Jean Marie Straub, filmagem de 'Crónicas de Anne Magdalene Bach (1967)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

E o corpo que se afasta,...

 Esperar as melhoras,

Ver um corpo que diz cores,

E a luz a filtrar os despojos do escuro,

A clamar terror,...


E palavras,

Numa alameda de silêncio,

As coisas escritas arredondadas,

Até parece que com esteiras nos extremos,...


E o corpo que se afasta,

Não vai voltar,

Deixou cores póstumas,

Mas acreditamos que vá ficar 

Last ruins of a future
Marvin Brutus

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

...apenas o silêncio total

 Onde, perguntei lhe sem saber a resposta...

O silêncio intrigava me. Olhos insatisfeitos, que diziam histórias sem soluções e sem personagens.ele esforçava se por contrariar isso, dizer das pessoas o que fosse possível, nem a mais nem que as deixassem como menos.

Preferiu, durante muito tempo, nem dizer como se chamava. Apenas que soubessem que não tinha família, entes queridos. Deixara pessoas a quem desejou bem, algures onde o mundo tinha perdido o sentido e a beleza. E continuava sem saber a resposta. Apenas que lhe perguntava desinteressadamente várias coisas.

E em troca tinha apenas o silêncio total, e despido de preconceitos 


                                                                                Tirado daqui

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Mais vale um sumário,...

 correr para onde?,

se é escuro,...


o desenho não se entende,

não há caminho de todo,...


e apenas uma breve música,

um assobio inofensivo,

nos convida para onde ir,....


mais vale um sumário,

e um homem de braços

cruzados,

e esperar,

um inocente vai

agradecer-nos


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

.....yves montand de estimação

 Ninguém foi ensinado a concentrar um olhar,

Uma decisão,

Um passo para longe da segurança,....


São compras de impulso,

Como levar um pano sem cores de uma banca de uma idosa sem nome,

Ou trocar de alma perante o diabo na rua,... 


Ensinados estamos a mentir,

Como se as horas nos acrescentassem,

Em vez de termos o Yves Montand de estimação,

A impedir-nos de saltar da janela agora,

E pôr a rua a falar de nós uma última vez


Lost in her dreams 
1835
De: friedrich Von amerling 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Tudo desabava,...

 Via onde as coisas enegreciam,

E o céu ficava sujo,....


Estávamos vestidos de malte,

Mas a garganta seca impelia que prosseguissemos,...


Só se viam restos de comida apodrecida,

E o céu escondido atrás de nuvens amarelas,...


Éramos muitos,

Sem pavor de parar,

 nem vontade de ser diferentes,...


Tudo desabava,

Mas a ideia,

A luz do momento e o apetecível da ideia,

Já se viam pra lá

 dos montes envelhecidos 

Beauty im a marble room
1894
De: John William Goodward

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Fevereirando de 2026 a 3 de julho de 2025

 Nao implicava esforço.  Apenas um rosto intacto, incólume de expressões e desalento. A vontade de ouvir. Perceber que a sucessão de manhãs de chuva, não faz o desalento de um homem, mas é apenas a fatalidade de um mundo finito que tem tanto de autofagico, como de pai que devora as suas próprias criações.  E também ajudava gostar de cores. Preferir a neutralidade do branco, mas defender que uma emoção perdida, pode estar em movimentos conformados, mas ainda assim felizes, de lavar uns quantos morangos. Expressarmo-nos na intensidade daquele vermelho. Olhar para o lado, e esboçar um sorriso com as verduras acondicionadas num cesto de vime.  E findo este senso de rotina, dar uns passos, abrir de par em par as cortinas de seda envelhecidas, mas ainda funcionais da cozinha, e deixarmo-nos perder naquele azul de céu que sempre lá esteve. Desde o início dos tempos que é um amparo de anseios, a explicação de alegrias. Está lá.  É esta a verificação, e a possível desilusão aconchegante da condição humana. Aqui explicada de forma sucinta, mas empenhada, verificando que entretanto a inevitabilidade da chuva já veio.

De: Julius Granstrom