quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Mulher descida da cruz


descida da cruz
homem como Jesus,

foi o pecado trazido
em assomos de vento
nos desesperos dos
que a morte adorava pela medida da adoração,

a todos beijou acidamente antes de matar,
e banhar-se nos resquícios de fôlego que
naquela tarde ainda
restavam ao tempo,

fez-se noite com a
lua enrolada a sangue
na incerteza de o
amanhã se desfazer
em chuva de acrescentos de nada...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Povo somos ninguém


frio e frios de percepção,
estavas e ao que podíamos ter
chegado,
num social de medos
brancos e forrados a
tijolos de lágrimas,

estava escrito consoante
estas regras,
assim deixasse o povo
de ser triste,
e lhe pintassem a calçada
transparente de morte
ao longe que se deseja....

sábado, 29 de janeiro de 2011

Depressão

tudo num choro,
o desespero lá à frente disparado a tropeçar,
e o que não fica de rir caído, 
sangrava,
preparava-se assim
uma noite de chuva à beira-mar,
e o vento a querer conversar,
dizendo de mim o
que de verdade o papel
branco tem....

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

'Ecapa'


Súbditas as tardes que vêm morrer na praia onde as crianças enfeitadas com tiaras de chumbo, e sapatos feitos de teias de sonho desfeito, gostam de acalmar insubstituíveis práticas comuns de mimetismo. Chamam ‘Ecapa’ à alegria de juntos saltarem o barranco da tristeza, procurando do outro lado coisas que desenhar com as lágrimas que sobravam dos medos que já deixavam de sentir. Sentavam-se em semi-círculo, dispostos por vontade de fazer bem com um simples afago, um bem dizer, um sentido prático de tornar no bem comum as experiências de choro alegre que as tenras idades já lhes permitia gozar.
Parecia rebentar em fogo de artifício a ‘Ecapa’ bem feita. A que secava a areia húmida da praia, e a transformava em ouro. Ou o que parecia ser a alegria dourada de qualquer Deus que na eventualidade de ter criado aquele mundo em Guerra, chorava agora impaciente com o verdadeiro da comunhão de espíritos livres. Bem casados consigo mesmos.
Escrevia-se tudo isto de forma liberta. A pena era de uma mulher bonita, solta de ideias, tristonha mas crente no círculo interminável do mundo. Fazia parágrafos longos entre os diálogos, deixando fontes profícuas de insubstituível desilusão. Mas uma desilusão saborosa. Cheia de expectativa que o dia nascesse amanhã, com mais alegrias destas pintadas a ouro.

Desde Outubro de 2010 que não havia poema no Singelo,....

..., e agora está aqui

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

À beira de um quintal....


O meu avô, homem morto e enterrado, estava naquele dia sentado num pequeno banco ruçado, pregado no meio da eira do quintal da senhora sem nome que conhecia toda a gente. Era começo de primavera, dia de estios daqueles difíceis de definir, mas até fáceis de suportar por encurtarem as noites, e esticarem os dias. O homem espreguiçava-se, dizia asneiras, roçava o cu nas folhas ásperas da bananeira que quase esganava por água naquele quintal feio. Perguntei a um e outro que passavam ao lado do muro baixinho da propriedade se conseguiam ver aqueles preparos. Mas toda a gente me olhou com insatisfação das que se dedicam a um doido, e seguiu caminho. Comecei a pensar que só eu lhe emprestava alguma existência. O calor apertava. Tirei o casaquinho de algodão que me aconchegava as espaldas, meti-o debaixo do sovaco, e entrei. Um cão quase me devorou o calcanhar por entre dentes que escorriam baba espremida por uma trela de aço que quase o sufocava. Mas,....nem liguei. Dei um passo seguro, dois indecisos, e ao terceiro já me achava perto daquele ser.
- 'O senhor consegue ouvir-me?'
Respondeu-me com o nada. Continuava a espreguiçar-se.....A entalar os dedos numa vedação rasa e cheia de ferrugem que convidava à doença. Começava a achá-lo morto, quando me disse o que tinha acabado de fazer.
- Tu vais morrer daqui a 10 minutos. Uma dúvida assolar-te-á de forma tão doce, que te tirará o ar dos pulmões devagarinho até te achares aqui ao meu lado, pronto a fazeres qualquer coisa para que a eternidade não seja mais que o que vês defronte de ti.
A prática dizia-me para não acreditar. Sou dado a alucinações quando como coisas pesadas pela manhã. Mas deixei-me ir naquele embalo. Como já me tinha provado estava farto de viver, e não tinha mais nada para fazer deste lado.
O que o homem disse, o meu qualquer coisa de quem já nem sequer me lembrava, começava a traduzir-se no real. O peito mirrava-me, os braços pesavam menos que uma folha de margarida a voar, e assim me deixei ir.
À hora a que escrevo isto, já vejo o ódio do mundo todo guardado na recôndita e espessa matreirice dos velhos.....

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Com lágrimas recebi a noção de que...



....a vida não é o que fazemos dela. Mas sim aquilo que nos propomos fazer com tanta força, mas com tanta força, que só pode dar certo.
Bela forma de começar 2011 por aqui. Digo eu:-) 

domingo, 12 de dezembro de 2010

Regresso XIV / A Cena do Ódio (A Mário Viegas)





Eis senhores a gula,
a parte solta do peido da outra,
a mulher farta de poucos
costumes com que se sobe a rua
para depois descer a partir de
ventos que só nos
levam bocados do que
éramos antes de nos perdermos,
o perfume,
o adeus traduzido em tanta
coisa mas ao mesmo tempo
pouca com que nos vamos
dizendo adeus aos poucos
deste rame-rame das
metálicas maneiras de
escrever porcaria,
se somos o que provavelmente
a sermos,
dizemos amanhã o que agora
nunca conseguiríamos dizer
às costas das nossas mãos,...


eis senhores a vontade de comer,
o desnorte com que parecemos
nem ligar ao quarenta e dois de sonhos
que nos traz para casa depois
de outros microbiarem o poucochinho
de muito que a nossa mãe nos deixou
depois de afagar a cabeleira que já
cá não está para nos proteger,...


e agora deitado senhores,
resta-me só partir para melhor
expressar o que com isto aberto ficou,
a vida solta nos redondéis de coisas destas,
talvez sirva para palitar dentes gastos que
os soltinhos de espírito usam para
escapar aos desígnios da morte de todas
as cores,.....

Regresso XIII

-Não consigo escrever nada que interesse às pessoas.
Tão depressa o redigiu, e mal o fez embrulhou o papel em tantas vezes quantas uma raiva negra o ditou, e amarrou os pés com força suficiente para orar. Alienado das constantes solicitações de espíritos que pareciam enrolar-se em redor do único esforço que o prendia à vida, dedicou-se a ouvir o entrecurtado silêncio que o tempo faz quando contorna a facilidade com que a vida passa. Queria dizer qualquer coisa a quem o quisesse ouvir, mas a única coisa certa a sair era esta indefinição de narrador que punha termo a semanas de silêncio doloroso. Parecia ter nascido uma de somenos necessidade descritiva irrisória, e como tal dedicava-se a compartimentar o que observava em situações que fossem capazes de criar impacto. Ao fundo uma janela de ripas de madeira quebradiça, com três vidros embaciados sobrepostos, que a custo sustinham a chuva e o vento persistente que davam as boa vindas à noite. Tiritava de frio com a imaginária 'Luftwaffe' de pré-loucura que parecia querer arrancá-lo a esta persistente vontade de conter o silêncio.
Não iria parar.
De seguida a parede. Cinzenta, com focos esverdeados de bacilos que revelavam o desdém com que aquele sítio parecia ter renegado o batimento do coração necessário ao humanismo.
Não. Isto é tudo muito fraco para se continuar.... Talvez noutro dia.....