18.11.18

Algo sobre uma foto

adoro esta foto,
é como se da terra
tivesses aprendido a fazer
amor,
como uma metáfora que a luz
te tem trazido pegada à pele,...

e é como te virando do avesso,
de ti brotasse o abandono,
o mesmo que faz das coisas o
absinto delas mesmas,
e torna a nossa existência uma
contumácia de pensamentos sem nome,
sem pai,
e com mãe moribunda,...

talvez dizer-te mais uma vez 
que adoro esta foto,
apareces nela,
desaparecendo à luz 
nauseabunda do dia 

17.11.18

Gatos

A casa ficava ao nível do mar. Podíamos ver as gaivotas a sobrevoar o telhado, fazendo círculos concêntricos por cima das nossas cabeças. Grasnavam quando pareciam querer que as víssemos, e olhavam para baixo fixamente, atentando a cada pormenor do nosso percurso, sempre que o outono se preparava para espraiar nas falésias que embalavam o sono das ondas que vinham desfazer-se em espuma junto a nós, adivinhando quando queríamos fugir à loucura de tudo aquilo que era igual.
Havia sempre um gato à janela naquela casa.
Foram vários, ao longo dos anos, mas todos juntos pareciam fazer só um. Acompanhavam as nossas presenças de espírito perante tamanha beleza, as nossas depressões quando tínhamos de abrir as portas daquele sonho e regressar ao mundo encrespado que girava, lá longe. Nasci ali, no meio das mantas 'tweed', e dos bules de chá. Das gaivotas que ganhavam coragem de entrar porta dentro, e bicar os bocadinhos de pão torrado que saltavam da torradeira todas as manhãs.
 Mal aprendi a andar, aproximei-me da porta de casa e espraiava a curiosidade com longos olhares nos carros que, lá longe, serpenteavam no horizonte, fazendo-me crer que o real tinha um tamanho descomunal. Do tamanho da imaginação que eu conseguisse, um dia, amealhar por todas as pessoas com quem me viesse a cruzar na vida.
E sempre os gatos. O tal único gato de que já falei. Que quase me parecia sempre que sabia falar. Olhar para mim com olhos raiados de choro alegre. Ouvi miados roucos. Estridentes. Declarações de amor sem sentido, e plasmadas de todas as formas inexistentes que a linguagem proporcionava.
Ainda hoje me lembro de tudo. Como se tivesse acontecido em redor do último minuto.....

16.11.18

Mãos desfeitas

todavia as mãos desfeitas,
vidas arrastadas atrás de um momento
encovado na morte,
com um rosto que se esvai,
alocado ao sono dos dias engarrafados,
com água podre,
e choros ao fundo de todas as ruas
que já se desfiou,....

as parcelas inauditas das somas
dos risos,
dos segundos despercebidos,
arrumados em cantos
desconhecidos do viver,...

ainda as mãos desfeitas,
preso à lamúria de noites
insuficientes,
ressurjo adormecido nas
frases longas de
um amor inaudito


15.11.18

Sem título (81)

ela não sabia como pedir desculpa,
só sentia que ao abrir a boca,
ninguém a entendia como alguém válido,
capaz de ser levado em conta 
quando surgissem as dúvidas,
e as indecisões 
que sempre existem 
nos minutos que se 
seguem ao ensandecimento 
coletivo,... 

escolheu por isso o silêncio,
e o rosto por entre as 
mãos em face do falhanço,
e o acumular de 
frustrações em 
vez da poesia,...

não queria 
melhorar até que 
um dia abrisse a 
porta de casa,
e o tal Principe,
que nem 
precisava de ser o 
mais belo da história,
lhe perguntasse 
porque é que o 
cabelo dela não 
ficava melhor 
ao sol do entardecer 


14.11.18

Só tu me consegues ler

Inatingível 2018 em novo 'crossover' com o blogue 'Páginas Partilhadas'

Não faço os cês suficientemente redondos, eu sei. Os meus emes parecem dois arcos do triunfo prestes a ruir, numa Paris dos adeus e nunca dos encontros . Aprendi a escrever tarde. Antes só respirava para poder partilhar o meu nome, as razões do meu choro, e uma ou outra coisa menos insolvente. Evoluí para os poemas sem sentido. Simples, insonsos, e que normalmente acabavam em longos entardeceres, sem frases sequer para se perceber o que pensavam os intervenientes.
Houve um tempo em que só me preocupei com o real. Os pobres e o transpirar inclusivo do medo nas páginas brancas. Os ricos que levavam a nem querer ter páginas. E os remediados, dos quais já nem me lembro.
Hoje, se calhar, só tu mesmo me sabes ler. Não quero escrever mais do que o necessário. Acho que sou um auto-didata do descritivo. Com longas impressões das coisas que vamos, ocasionalmente, vivendo juntos. E se calhar estou bem assim. 
Ainda aguardo pelo primeiro leitor....


13.11.18

I feel like bubblin' right now

What comes after...

aquela era a hora em que vinhas,
e me encontravas no avesso das mãos,
desenhado a carne viva,
por entre o que era o desânimo
de escaras que nunca assumiste ,....

pensando as pessoas
que só professávamos
o amor,
dizíamos no resto dos
olhos a escrita do sangue que
já não corria,
dos frutos podres de
um tempo em que
não queríamos mais medrar,
como outrora,...

naquela hora em que vinhas,
terminavam as histórias,
e aquelas pequenas pessoas
de um dia fechadas nas mãos
de quem nos via


12.11.18

Irresponsável dissertação sobre o nada

começa em ti o silêncio necessário. As dores que calcinam pela dor que a vida faz, quando passa pé ante pé rumo ao chão sem pedra que é a inovadora repetição de não ter para onde ir. De não ter o que respirar. Somos todos os mesmos quando, voltados para o abismo, procuramos na ponta dos dedos a ponte que já não existe. A rédea que o vento precisa para não nos levar.
Por isso, começa em ti o silêncio necessário. Às vezes querer o longe dentro do côncavo das mãos, é impossível. Bastam dois dedilhares. Duas frases por construir na folha em branco de um final de tarde sem nome




Tirado daqui

11.11.18

Idiota a representar o tempo e o medo

a senhora invisível era incapaz de responder quando a pressionavam,
as horas respaldavam para a inquietação,
deixando-a sem palavras,
achando que o poder do silêncio era a melhor solução para tudo,...

um dia fez um desenho de um minuto,
era um príncipe bonito,
de cavalo branco,
com ondulados cabelos louros,
e acabou a rasgá-lo em várias partes,...

as coisas nada mudaram para ela,
só ficou a saber assim que além da pressão,
não sabia lidar com a rejeição que é o envelhecimento


10.11.18

escrevo sempre qualquer coisa

escrevo sempre qualquer coisa porque naquele prédio não há livros,
nem que seja que já tive amigos outrora,
quando dividia as palavras em amor e adoração,
e as pessoas gostavam de mim por isso,...

quando me mudei,
e fui saltando de bairro descosido,
em bairro descosido,
tornei-me fechado,
as letras começaram a cheirar a argamassa,
e eu sei que usei alguma para fechar uns buracos insuspeitos,
que se me abriam no peito de vez em quando,
e por onde o ar carrilhava o suficiente para me ir deixando desconfortável,...

hoje estou num sítio frio,
onde vou sempre escrevendo qualquer coisa

9.11.18

Geometria da ausência


os teus olhos não me namoravam os círculos dos dedos. Só prisioneiro da vida em esfera, podia pesar o suficiente as indecisões para que lá na precisa referência ao que, obscuramente, me dizias com um sorriso, tudo se resumisse à triangulação do que já não tenho para te dizer . Sobram-me apenas fardos sem sentido de sorrires que, sei-o, só tu me soubeste dar. Coisas, aqui e ali, do que me ensinaste a escrever. Sempre os mesmos poemas, mas sinceros, retangulares, com forma de jardim onde nunca estive mas em que talvez já tenha dormido.
Pequenos círculos de um odor a morte inundam-me o palato, agora que já é o primeiro dia sem ti 



8.11.18

Fernando perdeu a pessoa

o senhor orpheu tinha 
nome erudito,
bigode mal 
amanhado,
amava uma 
ophélia e não sabia 
se era amado de volta,...

saltava de quarto 
em quarto de uma 
lisboa que o acorrentava,
a ponto de encher 
arcas de madrepérola,
com folhas 
amarelecidas de 
palavras encavalitadas,
escritas em letra 
incomportável para 
olhos como os seus que,
acasalados em dois 
monóculos cerzidos 
com fios de arame,
o roubavam 
paulatinamente à luz 
da vida,
deixando-o entregue
 a mapas astrológicos 
sem sentido,
que um dia 
lhe trouxeram 
um último suspiro,....

muitos anos 
depois descobriram 
que o senhor orpheu,
se tinha 
chamado Fernando 


7.11.18

Bloqueio criativo

não me apetece escrever nada hoje,
sinto que os meus dedos 
caíram no buraco 
sem fundo da dúvida,
e não há ruas 
onde possa ir para 
conhecer luzes
 opacas,
das que nos 
furam a pele e ressurgem com mil 
histórias de pessoas de sucesso,
com vidas medianamente desafiantes 
para fazer perceber aos outros 
como compensa rabiscar criação literária,...

poderia forçar o erro,
e esperar por dois 
beijos de instinto,
com a louça de uma 
casa perdida 
no tempo,...

mas não vale a pena 

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