16.7.18

Poema a meu pai sem corpo

lembro-me dos mais velhos a falarem de quando o conhecimento era um medo,
o tempo em que os livros forçosamente eram segredados,
passados de suspiro em suspiro longe da luz do dia,
podia ser à sombra de uma árvore,
na ilusão de um toque fugidio,...

hoje conhecer é incorpóreo,
não está em lado nenhum,
e a decisão de termos posse de sinapses,
faz-nos raios de luz que chamam a si a liberdade

15.7.18

Livros enlouquecem

não me lembro letra a letra de
qualquer frase desse livro,
só sei do estóico do recanto
onde ele estava,
e de o recolheres pelos píncaros
chamando-lhe fusão,
e irremediável perda
de sentimentos,...

achei que ao coseres os
lábios em V,
estavas a hiperbolizar
um sentimento,
porque um livro não
é o frio da salmoura
dos dias,...

nem sequer adianta o luar pela janela,
como forma de retomar sanidade
perdida com finais inesperados
em verso,...

importante mesmo é
frisarmos a loucura,
quando adormecemos à noite



14.7.18

Poema descoberta

há dois ou três
livros atrás,
estava aditivada
em mim
como certeza,
a adesiva
presença da tua razão,...

encontrei-a
metaforizada
no choro de uma menina,
que nem sim
 nem não,
optava assim
pelo atirar dos
barcos ao cais,
em vez
do amor,...

sabes,
acho que perdi
 a vontade de
dormir sobre
 a leitura,
depois disto,
sabendo
que encrustei
frases menores
do nosso dia a dia,
em cima
da minha
fórmula de adormecer,...

este talvez
 letra a letra,
seja o
último poema
descoberta da minha vida

13.7.18

Minimalismo

esta mania de bocadinhos
fazia,
com que começasse
todos os
poemas por minúsculas,....

até os pedacinhos
 de sono que trazia
agarrados à franja,
quando o sol menino a
beijava no estio
de cada manhã,
já deram uma cidade
inteira a voar
no assuão,
do amor da
despedida


-—————————/-/—————

Acordo de separação

findas as negociações,
foi decidido puxar aquele
 papel de 25 linhas
 da gaveta,
e passar o
acordo a escrito,...

havia duas saudades
 para repartir em
partes iguais,
aos dias pares
ficava com o homem
do nariz pequeno,
aos ímpares com o
homem sem voz,
e quando o tempo parasse
 por mero cansaço,
as saudades,
que eram irmãs,
iam esperar dentro da
luz refratária que o
mar refletisse,...

aguardava-se pela equidade
deste acordo,
já que o mesmo era
visto como último recurso
para as partes envolvidas,...

pai e filho que iam
mudar de continentes,
e passar a ver-se só quando
 a sorte quisesse,...

a letra miudinha a
palavra amor estava
lacrada a lágrimas 

11.7.18

Rua zero

não, não estávamos sozinhos e chovia,
lembro-me de na rua escorrer um pequeno
rio de margens soltas,
vermelho sangue,...

parecia que nos ossos das casas,
havia moribundas e efetivas
partes de heranças,
deixadas pelos risos de todas
as crianças,...

conversámos,
até o sol se encaracolar
naquelas nuvens que eram habituais no
horizonte,
e parar de brotar o desnorte
de todos os cantos invisíveis
de morte,....

e no fim a alma
desenhada num,
mão na mão


9.7.18

Cinquenta anos antes

cinquenta anos antes,
contados a pernas de medo,
lembrava-me do jardim que media
com revirares de órbitas,
falava comigo a amarelos,
sem que dele percebesse que outrora
tinha sido uma senhora que esperava a morte,...

também me recordava do bater diferente da chuva,
que soava aos batuques de folclore daquelas
festas de interior esquecido,...

cinquenta anos antes,
nem sequer tinha existência corpórea,
mas lembro-me dos passeios da língua,
a forma como qualquer ser que respirava,
se fazia entender apenas pela pele invisível
e escarada,
a mesma que prendia à pobreza,...

cinquenta anos antes,
apareceu definido na porta para a dimensão
de medo em que hoje acordei

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