sábado, outubro 21, 2017

Salsugem (Al Berto), ou como se escreve bem para xuxu!!!

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso... depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo... navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar

sexta-feira, outubro 20, 2017

Casos soltos no mundo


Desvendados em razões de fumo baço,
Fomos todos assim naquele momento de qualquer coisa
passada vivido ao sol,
Eram misérias escarlates em sexteto,
Gritadas ao vento pelo mais louco dos
invisíveis da sorte,
Foram pedidos,
Constantes ladainhas de amores trocadas por pedras de comer pelas solitárias habituais,..

Ao longe tudo era pintado a sono solto,
Assim acabou a noite em repetição da aldeia mais perdida do mundo….

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domingo, outubro 15, 2017

Escrita ressarcida

...o homem disse que queria escrever um livro,
Mas ia ser diferente,
Não poderia ter frases,
Palavras,
Letras,
Pontuação,
Nem sequer lamechices de casalinhos a viverem felizes para sempre,...

Perguntaram lhe como seria isso possível ?
Disse que não sabia,...

Talvez se confiasse em alguém de uma forma doentia,
E depois fosse traído a ponto de querer morrer, 

Pegasse numa pedra e rasgasse sulcos no tempo em número suficiente para fazer sentido ....

quarta-feira, outubro 11, 2017

Mulher e o seu gato

Todas as manhãs escondia-se do sol. Já tinha um mantozinho, cortado mesmo à medida, e feito de uma rede mosquiteira que apanhara na rua. Fez mangas, dois bolsos para pôr as coisas da costura, e servia como uma bata. E desde que aquela maldita bola amarela aparecia, até que a escuridão voltava, ficava sentada numa cadeira de verga, na cozinha escura, a ver o gato malhado a brincar com duas bolas de pêlo. Enganava o estômago, quase sempre, com dois bocados de pão que lhe trazia a vizinha do piso de cima, mal a noite chegava, e uns  bebericos de chá que a cafeteira dava quando a lenha queria queimar e cuspir calor. Não era coisa que gostasse, fazer aquilo. Mas em criança ouvira falar de que o sol queimava as ideias às pessoas, já para não falar que deixava o cabelo tipo fios de esparguete depois de cozido. E assim se foram passando os anos. Quando começou já não era nova. E já perto do fim sentia-se só um bocadinho velha. Por isso, quando o último suspiro chegou, ao menos ficou o conforto de que o gato que brincou anos a fio com duas bolas de pêlo tinha crescido, envelhecido, e agora jazia à entrada do quintal.Ele sempre gostou de sol….



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quinta-feira, outubro 05, 2017

Dói-me a cabeça....

Maria de fora,
Luzes de som,
Estou com fome,
Vá, foge para o bas-fond,…

Já marchava uma sandes,
A cerveja aquece pouco,
Diz que os torresmos são da flandres,
Olha, quero é dormir antes,…

Espero por ti até um dia,
Pelo sim, pelo não, pego na aspirina,
Se bem lembro na posologia,
Não vem lá que aquilo tem estricnina,

Já desconfio de tudo,
Parte de cima,  parte de baixo,
Dá-me a muleta enquanto estou sisudo,
Para a próxima abrando o fogo no faixo,…

Maria de fora,
Luzes de som,
Já estou farto,
Reduz mas é o tom….

Premissas de sofrimento

Desprendeste-te daquele segundo ininterrupto,
Para que só a sombra do respirar intermitente que
o amor te dava ficasse visível,
O resto foram sombras em luta de lágrimas,
Promessas de que te embrenharias nos braços da
morte adocicada se eu fosse,
Que a vida deixava de ser a dança de suspiros que tinha
sido se tudo acabasse,…

Ouvi cada entoação,
cada certeza incerta do que juravas ser uma inevitabilidade,…

A responder tens este poema,
Sou só eu a dizer que o amanhã vale muito
mais do que eu no meio de tudo o que transpiraste
em tristeza….


quinta-feira, setembro 28, 2017

Eu cá gostava de escrever assim, mas não consigo!!!!!

Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.


António Lobo Antunes

terça-feira, setembro 26, 2017

Dececiona-nos

Dececiona-nos,
Incentiva-os pelo medo,
A soma dos percalços desta confiança é a terra a transpirar gritos indecifráveis ao amor dos mortos que respiraram o fim juntos,...

Tudo isto escrito dá os escritores amordaçados que ninguém conhece, 
E o respirar dos dias iguais aos minutos seguidos de segundos esganados de solidão ...

Publicação em destaque

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