20.1.19

Cidade comestível

vento com sabor a morango,
sol cortado em gomos de luz,
uma rua estendida,
de par em par,
por sobre as esquinas 
dos anónimos com nome

19.1.19

O homem que gostava de matar árvores

o homem que gostava de matar árvores,
era um senhor com tantos 
senhores dentro,
foi doutor, ladrao, 
quebra-corações e 
palma estradas,
andou pelo mundo 
sem nunca ir ao que
 está dentro de cada verbo,
traiu, amou o suficiente 
para ter aprendido a 
deixar de chorar,
e quando sentiu 
que perdia o 
condão de mudar a 
pele sempre que queria,
voltou aquele 
mesmo sítio de sempre,...

com as mesmas caras,
um relógio único 
que batia a vida 
e esquecia a morte,
talvez por isso 
começou a 
odiar as árvores,
via-as como 
velhos inúteis,
maltrapilhos
 sem eira 
nem beira,
que era 
preciso corromper,
e depois eliminar,...

arranjou 
uma maneira simples,
tirava-lhes a 
alma escrevendo 
simplesmente 
rancor nas 
cascas malhadas,
no dia seguinte 
sorria ao comprovar 
que já não respiravam 

18.1.19

Saber ser mãe e pai

de sempre com o útero nos olhos, 
havia um tempo no tempo 
em que conseguias 
ser mãe apenas com o estar aí,
de respirar afilado,
ansioso,
esperando que de ti 
brotassem filhos 
inesperados,
a que tivesses 
de dar de comer 
com palavras escassas,
bem medidas,...

só tu parecias o 
inevitável da 
continuidade da espécie,
fazendo com 
que de ti me 
acercasse a cada frase,
sentindo-me 
mortal perante 
um esplendor cadente 
que te estava lacrado na pele,...

não sei de ser amoroso,
não sei de me arrastar 
pelas esquinas do 
não ter nada para dizer,
fazendo com que até 
me pudessem colar 
um suave halo de paternidade,...

isto tudo porque só sei 
ser eu mesmo em zero,
sem nada para respirar,
com tudo para que 
me recusasse o enlevo 
insignificante de muitos 
textos carinhosos,
para ler a filhos 


17.1.19

Arquivo de cabeceira

chamávamos arquivo de cabeceira
aquele monte de papéis
amarelecidos,
rabiscados a carvão,
atamancado nas duas gavetas de arrumação
que o quarto tinha,
os únicos locais de retorno secreto que
aquele que era o nosso espaço,
tinha entre o redescobrir do sol,
e o estrangulamento da noite,...

lias com alguma atenção,
quando a solidão to pedia,
as considerações em forma de
desenhos de canto de folha,
que eu conseguia fazer sempre
que não estavas lá,...

por vezes havia palavras desconjugadas,
verbos sem sentido que pululavam
aqui e ali no desnorte daquelas
distrações,
sim não foram mais que distrações,
o socorro que aqueles diários de segundo
representavam,...

e que agora talvez repousem melhor no fogo,
não quero deixar pontas soltas quando o
meu eu se azular,
para procurar o mimetismo do anonimato


16.1.19

Um dia gostava de saber escrever assim

“Amei-te sem saberes No avesso das palavras na contrária face da minha solidão eu te amei e acariciei o teu imperceptível crescer como carne da lua nos nocturnos lábios entreabertos E amei-te sem saberes amei-te sem o saber amando de te procurar amando de te inventar No contorno do fogo desenhei o teu rosto e para te reconhecer mudei de corpo troquei de noites juntei crepúsculo e alvorada Para me acostumar à tua intermitente ausência ensinei às timbilas a espera do silencio”
— Mia Couto

Intróito de transporte

a cada passagem no transporte público
da tristeza,
reparo no pôr do sol envergonhado
dos teus olhos,
sem solução,..

para que façamos dia de novo,
terei de retomar a marcha
sem que o destino me queira
mal




Retirado daqui


15.1.19

Continuar

e quando me disseste que só 
te interessavas por 
crepitar os teus 
dedos nos meus,
fazer com que as 
noites passassem 
menos depressa,
e de duas acumulações 
venosas passássemos a 
madrugada como 
um coração,
redondo nas pontas,...

dos que gostam 
de cansar-se 
para se sentirem 
menos próximos 
da vida desconsolada,...

aprendi a gostar de 
tambem,
crepitar dedos,
fazendo-o pela 
solidão medida 
aos restos,
sabia melhor 
que escapar à morte 
pelos pressupostos da vida 


14.1.19

Renovo

renovo,
partindo pela justa,
 eras de todos,
o ar que a cada um respirasse,
dando o pleno do ser das veias,...

 e o sangue que bate,
respirando nos barcos sujos do rio,
renovo,
e primeiro que tudo,
o silêncio...

13.1.19

Espermatozóide em poesia

Não sabem escrever poemas. Ameaçam os tempos
idos com denúncias de ziguezagues emocionais,
e outras palavras que tais que
ninguém sabe escrever,....

remendam-te a depressão com
copos sem fundo de zurrapa,
e no meio disto tudo o silêncio pautado do fado,
o que te fura os ouvidos com quaisquer
segundos gastos a reprimir choros,...

e no fim continuam sem saber escrever poemas,
talvez ao amanhecer,
quando as pessoas voltarem a pisar as mesmas
pedras de sempre,
e a enlearem-se nos mesmos barcos que
desonram os rios,
apareça um verso-espermatozóide que
faça com que o começo doa menos


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