20.8.18

Poema aos mortos-vivos

não gosto do jeito de fazer poesia destas segundas-feiras,
a falta de mulheres tranquilas,
seguras de que o tempo se lhes molda às pernas,
e não haver filhos sem versos nos olhos,
irrita-me,...

proponho poesias sem dias definidos,
a detestar os poetas,
acusando-os de um belicismo de todas as cores,
e que insulte as pessoas para depois as ressuscitar,...

perceberam?
mortos-vivos


19.8.18

Sem título (89)

eu não gostava que pusessem
balizas na minha existência,
servia-me do tempo como
os desclassificados de bairro
usam as meninas inocentes,
sem travão nem metáforas daquelas
 que vulgarizam os poemas,...

por isso,
os caminhos sem escapatória
não me diziam muito,
só o suficiente para acordar
 a cada manhã com os
olhos secos de choro,
aliás,
nunca acreditei no choro,
nem nas estrelas como
justificação para caminhos transparentes



18.8.18

Antever

...e era dizendo o restante dos murmúrios de morte,
que estava escrito naquela rua onde nunca tinha passado,
o som mudo dos ribeiros,...

...obrigado repetido por entre pedra solta nas bocas dos operários,
dizendo a fome na boca dos filhos que,
se quisessem ter,
abraçariam para depois abdicar na roupa rota e andrajosa da miséria


17.8.18

Fazer o tempo menos que o lugar

Quis dizer-te algo belo, mas ao mesmo tempo que não deixasse marca debaixo da pele. Tentei comparar-te à chuva. Dizendo que te achava o mesmo que a vaporização irregular da respiração naquele momento em que acaba de chover, e o céu se esmaga num cinzento dedicado ao tempo, e que sabe que vai morrer na certeza do sol. Não me ligaste. Fazias qualquer coisa em renda, encostada ao muro de todos os dias, e que do lado de lá guardava o teu mundo de cristal onde ninguém estava autorizado a entrar, sob pena de ruína total de um equilíbrio instável.
As frases pareciam escassear, porque para mim sempre tinhas sido a linguagem. O verbo desfiado em gomos de substantivos, para que só me restassem os sintagmas não verbais quando te quisesse aconchegar em qualquer coisa parecida com um gostar de ti.
Sobrou o entardecer que, sabendo eu te ter sido sempre indiferente, me deixava certo de que poderia tentar analisar uma linguagem corporal que te era característica. Com resquícios de uma solista num Lago dos Cisnes pintado a notas musicais sem cores, mas que mesmo assim servia para frisar o necessário de te querer ter.
Quando a noite chegar, e eu sentir que só sei pensar e escrever de uma forma monotematica sobre o evoluir da criação, deixando o resto para quem foi dotado de um pensar eficazmente aberto ao mundo, talvez me vá embora para nunca mais voltar.
Observava, entretanto, como as flores pareciam querer defender a dissertação do primado da indiferença, sobre o amor, em redor dos teus pés descalços e que lutavam por enraizar-se no cromático da Terra.


16.8.18

Arco sem triunfo

anos, tantos anos de meninas
simples,
sem saberem a
taboada ou sequer
ajeitar a cueca por
detrás dos vestidos de
 renda,
o amor de coisas inúteis
dito assim,
de chofre,...

e sem saber expressar
 ódio pelo fim de tarde
cor de merda,
que nao leva a lado
nenhum,
nem sequer à perceção
 de que o poema só serve para dizer que a solidão é melhor que tudo isto


15.8.18

Crise de meia idade


poderia este homem terminar
 hoje a vida,
que dele as pessoas sempre
esperariam qualquer
coisa da meia idade,
o conformismo no redondo dos olhos,
com os passos incertos
de não ter vida para desenhar
quando cada sol nascia,...

e ela relativizava as coisas
no refogado do arroz,
armava tudo a cada almoço
com um silêncio de melaço,
para acabar numa teoria difusa
 do sol como escape de um
sítio onde não se quer estar,
e com quem não se quer estar,...

um dia a noite entrou
pela casa dentro,
e deu duas coisas
a escolher,
desonra,
ou a capacidade de reter
 qualidades e transformá-las
em qualquer coisa parecida com felicidade,...

escolheu-se esperar pela próxima
madrugada,
o ser humano consegue o
impossível
 quando prefere desligar-se





14.8.18

Os sonhos não sabem desenhar

Diziam-me dos sonhos que eles não podiam desenhar. Só se sabiam exprimir por gestos limitados, quase como se fossem crianças a aprender a agarrar o mundo quando o mundo ainda nem sequer se apercebeu delas. E escolhi entendê-los, aos sonhos, como sempre percebi as estrelas:
como pequenos picotados que as pessoas que dormem acordadas destacam, e levam para casa para mergulhar em soluções de água com açúcar, fazendo-as florescer em filhos e filhas. Ou por outras palavras, garantes de imortalidade teórica.
Isto já aconteceu há uns anos, esta forma de ver o real. A vida passou por mim quase como se nada disto contasse para nada. Nunca o partilhei com ninguém. Tive filhos a nascer nas cozinhas que fui tendo, quase como botões de rosa que aparecem na primavera já com a educação assegurada, e morrem primeiro que nós sem que nós nos apercebamos de que eles são, na realidade, livros que nós lemos e optamos por deixar a meio para que outros, mais tarde, encontrem a maneira segura de se sentirem felizes com os finais incertos que dali surgem.
Enquanto escrevo isto sinto o meu corpo a definhar. Durmo pouco, como só o pão de todos os dias que sempre conheci. Leio nada mais que as caras das pessoas, todas as manhãs, quando propositadamente deslizo como o vento por entre tudo só para ver que nunca me enganei nas idiossincrasias empacotadas que me convenceram do fim dos tempos ainda antes que se saiba que ele vai chegar.
Mas de uma coisa continuo convencido: os sonhos não sabem desenhar. Refletir, talvez...


13.8.18

Um dia gostava de saber escrever assim

konstandinos kavafis / vozes



Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, e daqueles que são
para nós perdidos como os mortos.

Às vezes nos nossos sonhos falam;
às vezes no pensamento as ouve a mente.

E com o seu som por um momento regressam
sons da primeira poesia da nossa vida –
qual música, à noite, longínqua, que se apaga.



konstandinos kavafis
os poemas
adenda, 1.ª  (1897-1904)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005

Anatomia

parecia estranho que o tecido das coisas fosse de água,
tanto que naquela noite não conheci ninguém feito de nervo,
correr de sangue,
e perspetiva de morte,...

só o equívoco da solidão num pudim de versos vulgares,
sem que dos mesmos pudesse alguma vez haver sentido,
e apenas a perfeição talhada em cruz por conta de cada vida que se tirava a um deprimido,...

sei que comi ene estrelas ao aquecer da madrugada,
sem me sentir menos que a qualquer coisa que o big bang ia deixando deste lado,
sem saber ler




12.8.18

Orgulhosamente sem título

as pessoas mudam,
os verbos perdem a pele e
desfazem as proposições,
restando a pedra solta com a
substância de uma encenação,...

fazíamos falta uns aos outros
 se houvesse água nas
esquinas dos advérbios,
como se mormente o amor,
nos puséssemos em quatro
estações de lamentos,
para perceber a raiva
encaixada no silêncio,...

e de mim não levarão
mais que um morango de favor,
e um copo de água de
português mal entendido


11.8.18

As férias trazem a falta de sentido

Nefasto o dealbar do que querias sublinhado. Com a razão toldada em dois momentos que te brilhavam nos olhos como coisas por resolver, foi o vento daquele entardecer que sabias ir ser o último que parou tudo. As raízes dos ossos encravados na parte destrutível do ser. O ires com estigmas da crença curva em seres finitos. As pessoas que nunca te souberam ler mais que uma simples nota de rodapé. E as flores. Indiscritíveis artifícios que terminam uma discussão como esta, tal como começam todas: com a certeza de que o belo somos todos nós quando pegamos na ilusão, e a aconchegamos para o frio

10.8.18

Não olhes para lá do suor do tempo

não olhes pra lá
do suor do tempo,
aqui onde não somamos nada
 como os que sabem esperar,
os minutos ensinam-me
a repisar como o prender à certeza da vida,
se equivale aos grilhões
desenhados da morte que
 vem para jantar,...

e com um não saber dedicar
 amores frios à vontade
 de um beijo,
sugeria o contar das
 pedras da ausência,
a escrita desordenada
de frases às estrelas,
quase como se elas fossem
o fechar de boca dos mortos,
e com isso
trouxessem o descolamento à vontade de pertencer,...

para fim da impaciência
pelo uivar da criação,
o mel de estarmos juntos,
sem que dar um passo seja mais que
atrasar os relógios para lá do zero


9.8.18

O Inatingível 2018 de novo no blogue ‘Páginas Partilhadas’




O selo e Pessoa

remoendo as dores,
as frases de pedra estavam distribuídas por todos os bolsos,
restando uma carta gizada a escopro,...

com a manhã bem vincada numa metáfora colorida,
que extravasasse o papel em raios diáfanos de luz,...

havia o tudo escrito nas mãos,
as coisas ditas com voz dorida,
como se um desnorte abrisse as gargantas de onde nos ofertaram choros,...

passei pelos livros de mar que lemos,
os mesmos onde a poesia nunca conseguiu dormir,
porque ela é o ser sem descanso que sabemos estar lá,...

arrumadas as mágoas num saco indissociável de letras,
precisava-se de um selo para expedir o destino,
com cara de dizeres de feira,
e olhar de rainha frustrada com falta de amor,...

surgiu-me Pessoa sem egos de renascimento,
apenas um suspiro de tantos mal quereres que ainda hoje esventram a terra de raízes,...

não sei se voltarei a
ver-te acordar com este
amontoado de medidas de sonhos

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