2019/04/30

Café

só no quarto andar havia aquele café, que dissecado parecia zurrapa de um esgoto. Sim, podia trazer a morte, mais depressa do que cimentar a vida. Mas de nada interessava. Ela lembrava-se deste desvario de lesa velhice, quando precisava de chorar. Sentia-se arredondada, porque há aqueles dias em que lá vamos nós a esgueirar pelas frestas de uma janela, ao mesmo tempo que não conseguimos evitar uma dissolução nas gotas de chuva ácida que lamentam o suicídio da terra lá fora.
Todos os dias brincava com a sorte, na escolha de roupa. Umas vezes dava aos olhos esfomeados dos homens a curva de uma perna, nos outros, os que tinham sorte, fixavam as pupilas naqueles montes alentejanos de fim de Setembro que, inocentemente ou não, baloiçavam, no bulício do quotidiano.
Sempre, a confiança iludia uma insegurança inconstante. E restava aquele café. Que se estendia por sobre qualquer chão que se pisasse, qualquer boca lisa que se beijasse,.... sobre tudo


2019/04/29

Parabéns...

...onde quer que estejas!!!



Escondi-me

escondi-me por alguma razão,
sem que o silêncio fosse
o argumento que
desliza por entre os números,
mas antes pelas palavras,....

resignado à folha branca,
ao ter sempre a mesma
coisa para dizer,
os mesmos castelos transparentes
que sustentem as falhas inodoras,
deixei de saber escrever
o suficiente para
que um sorriso brotasse,
flor,
do terreno virgem do teu ser,...

quis esconder-me
porque sim,
porque já não
me resigno a ter nãos
 para que deixe de ter talvez,
só quero voltar a fazer sentido,...

escondi-me,
e tu a brilhares
 como Quasar do meu sofrimento




2019/04/28

Abril dias depois

abril dias depois,
dois homens falam na mais
univoca rua da história,
e um choro constante devassa
as entranhas vindo da terra,
temperado a nuas promessas
de abundância,...

de cima não se luta pelo pão,
nem somente por duas indissociáveis
questões ideológicas,
só com o silêncio se percebe o futuro morto destas farsas 

2019/04/27

Alma



dizendo qualquer coisa sem cor,
para mim era igual,
resolvias sempre o dilema de não ter espaço,
nem frio entre o choro do silêncio

2019/04/26

Portugal leitor

há uns anos o Portugal leitor deitava-se
angelical,
de resto nada sobrava para que o dia
corresse ignoto,
só as suficientes estradas que desabam
de pobreza,
alguns não sei quês de famílias falidas e
que deixaram de ler,
e no meio disto tudo havia escritores irrisórios,
que se esforçavam pelo realismo,
quando do realismo nada mais tiramos
que o espaço entre as metáforas,..

e só resta nada menos que o suficiente,
para que o Portugal leitor renasça
analfabeto


2019/04/25

Sem título (68)

mil sortes sem norte,
razão prestes a dizer,
fazemos assim com
a parte forte,
do lamento que não tem fim,...

e eu a fraquejar,
sem pernas, luz,
ou olhos que praguejam,
se latejar,
será a minha veia que
vocês lamentam,...

saberei o suficiente para rimar,
como poeta sem noz moscada na voz,
sinto-me sem vontade de te dizer,
o que saberei serem rios sem foz,...

tudo acabou sem que te preocupes,
deixa-me a morrer mil mortes de vida,
seguem para a fonte cartas sem nome,
e anónimo morrerei para depois viver

2019/04/24

não poderias ser o que lamentas?

não poderias ser o que lamentas?,
as coisas todas que te fazem chorar
quando perdes o controlo,
e te vês a andar em riscos descontínuos,
nos sítios onde foste infeliz,
e que em circunstâncias normais escolhes evitar,...

tanta interrogação,
tanta coisa que fica por comer
quando a fome descontinua
a loucura,
não poderias ser tudo o que prometes
em contagem regressiva,
e eu te faço ver as luzes
que estão entre os silêncios,
e as sombras das palavras
sem sentido,...

tanto lugar comum,
conversa desconexa levado ao expoente
da arbitrariedade,
e pergunto-te à mesma,
não poderias ser o que lamentas?


2019/04/23

And the retarded award of human existence goes to....!!!!



Por cima e em redor dos tempos

não faço ideia se ter ideias é pensar
como anteriores gerações,
desacreditar o pessoal em detrimento
do fomento do bem coletivo,
dos desígnios que fazem bem aos sorrisos
de circunstância,...

sentia-me há uns dias como daqueles tempos
em que se trocavam livros pelas frestas,
das prateleiras da biblioteca,
pelo medo da polícia do pensamento,
e em que falar não custava nada,
só podia custar a vida,
mas ao mesmo tempo custava saltar por
cima da morte,...

hoje já não ligo ao que falam as
anteriores gerações,
sou só mesmo copista de estilos,
assoberbante razão para falir
todos os meus princípios filosóficos,
e ir marcando,
aqui e ali,
os racismos exógenos de que sou alvo


2019/04/22

Sem Título (69)

e se fosse o que desenhamos nos nossos sonhos,
luz infinda,
apartada pelos ziguezagues de
distância que os olhos nos dão,
com o tempo a passar por entre
as frestas de lá longe,...

não me sinto paz,
nem desnorte por explicar,
ao não me sentir nada,
como se o nada fosse o que resta
no bolso depois da miséria,...

talvez me apeteça deixar a caneta rolar,
e passar pelas Praças todas que conheço,
a chorar sem lágrimas,
encarar de frente a solidão que nunca
me desvaneceu em surdina,....

desenhando nos sonhos,
não me fazemos a mim
nem ninguém,
nem sequer a fome de amor
que não mata de inércia


2019/04/21

Sem título (70)

fala,
dizias ter escrito,
mas reúne a frase certa,
o pensamento incorreto,...

e ao falares,
não deixes nada por dizer,
porque o silêncio riscado na terra,
arredonda as sucessivas
ondas mortas do desejo