a esconderes-te das palavras,
nunca como hoje a face do medo
te tinha assim assoberbado,
frases e frases de silêncio,
sempre com os mesmos argumentos surdos,....
e agora,
percebendo a irrelevância,
assinas a minha despedida?
As suas prioridades nunca estiveram bem definidas. Tanto podia ser o bolo de iogurte, que saía sempre bem feito, queimado nas pontas como os meninos gostavam. Como os três quilos de arroz que, simetricamente guardados na terceira porta dos armários da cozinha, tinham de dar para várias semanas, quase como se a Rainha Santa Isabel não fosse mais do que aquela insegura dona de casa. Eram prioridades comesinhas, é certo, mas as possíveis. As únicas que tinha apreendido na vida. Lembrava-se de ser menina, à porta da cozinha da casa da avó, e ver aquela senhora que envelhecia a olhos vistos a andar, sofregamente mais devagar, mas incapaz de deixar de parar de satisfazer os gostos que não eram os seus. Regendo-se por um tempo que era sempre igual, e que parecia tirar-lhe tempo de cima, da mesma maneira como se podam as árvores.
Aprendeu, por isso, a priorizar as prioridades. Mas era uma tarefa inglória. Um dia percebeu que talvez, se se atrevesse a viver, as coisas começariam a mudar. Comprou um livro de auto-ajuda, que ainda se esforça por perceber.
um é o que esperas,
o outro já passou sem que repares,
ao mesmo tempo que te desligaste do tempo,
eu passei em frente aonde julgas morar,
vestido de nada,
e com sapatos de tudo atacoados e mal feitos,...
reparaste na sombra e em mim só restava
o fugidio dos momentos,
parei para um naco de ar,
e ao seguir esvaziado fui
para onde me querias inteiro,
e longe para que o esquecer
fosse real
e eu pensei que não havia Norte
no que dizia,
com as reticências postas sempre
a meio dos lamentos de estar só,
e nunca poderiam ser mais que
algumas, as vezes em que a poesia
deixava de estar escrita desta forma,
e tudo não sobrava para mais que umas
odes sem fim, com princípio, e
que deixavam a vontade de arredondar
as letras com vulgaridade que se bebia
em copos, e se me pedissem para parar com
esta lengalenga, eu talvez já não saberia,
porque ao ar só se pergunta a idade, e quando
os tempos vão acabar
aquela coisa revertida em dúvida,
a saída de casa, e o palmilhar errático
pelo meio da chuva,
arriscando o risco de afastar a vida,
e aproximar a bolina da existência sem rumo,...
chegar a um abrigo,
sacudir qualquer coisa sem forma
sem cheiro,
suspirar duas vezes enquanto ao lado,
pares e pares e pares de olhos sem
dono censuram-nos a dor,
medem-nos o próximo,
afastam o longe,....
seguindo com força imediata ao choro,
até que já ali,
onde nada cabe na ausência do querer,
tudo volta ao início,...
não sabendo descrever melhor o vazio,
escreve-se assim a
cabeça sem forma
narrando as coisas possíveis,
o sangue oculto nas frases perdidas,
pelo menos as que escolheste nunca acabar,
e o perigo,
ao menos que fosse o perigo de as pessoas deixarem
de nos considerar iguais,
apenas porque passávamos os intervalos do tempo
debitando versos incompreensíveis,...
e que opte agora pelo mais fácil,
mas não sei se posso
tenho idade para saber que as
linhas do meu sorriso são tortas,
e as montanhas das minhas mãos não
são montanhas,
quanto muito serão refegos estranhos do
corpo de uma criança mimada,
que se alimenta dos dias de ternura
que são para si uma droga,
e lhe enchem a barriga, e as pernas,
fazendo delas o que são as minhas mãos,
disformes,
sem analisar o presente mas consciente
de que o futuro são dois copos de água
meio-cheios,
porque a ansiedade mata sempre tudo,...
e as mãos têm de continuar inocentes,
assim mo diz a minha idade,
e na minha idade também me sento às vezes,
em esporádicos finais de tarde,
com o vento a querer fazer-me companhia
quando o que quero é a solidão,
e não continuar a forma irrefletida das
coisas em que minto,
transformando-as em verdade sem peso,
e sem rasto,....
já terei idade para perceber que me resta
a luz a infiltrar-se pela minha carne adentro,
e esperar qualquer coisa sem tempo assim,...
tal e qual,
sem saber dizer,
nem escrever coerente,
acho que poderias ser mais direta,
e este caminho indescritível ser
pintado a pó de sonhos,...
talvez nada faça sentido,
talvez já seja tarde para te descrever de uma forma
sem nexo,
apenas ao ritmo de pulsos cansados,
com um copo cheio de ar ao lado,
e chuva lá fora que massacra a pus do
tempo nas ruas,...
não me fiz analista do momento do nada,
à espera que te desmaterializasses sem sentido,...
não me peças mais lados irregulares
de um prisma de saudade,
não serei capaz sequer de um suspiro