Dizer que nasci por engano. Com a contribuição do acaso. Que a senhora minha mãe nunca realmente me planeou. Que na sua cabeça apenas pulsava a ideia de um filho:nunca o mais velho nem o mais novo. Apenas um. O que monopolizasse os beijos de inverno, e os copos de refresco açucarado de verão. O que tivesse tudo em tamanho único, roupa, meias, sapatos, discos, livros de colorir. Eu surgi numa madrugada de meio de Outono, com chuva mortiça, e caminhos de rotina na rua semi cheia de um dia semana, porque, defendia e praticava a senhora minha mãe, a honra é algo que não se apregoa, pratica se. Isso não impede que tenha sido um engano. Uma volta ao túmulo da ansiedade e das decisões mal tomadas, que os meus progenitores deram. Juntos, apesar de tudo. A minha pele clareou como um engano, à medida que crescia. O meu esqueleto alargou. A minha voz sumida, vencida pela timidez doentia, rodeava me de noite, na cama, no espelho das manhãs. Na leitura monótona do resumo das novelas. Cantava em surdina ate canções, que faziam de mim um gigantesco ponto de interrogação.
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