Sempre fomos assim. Os mudos desta rua. Costumávamos sentir orgulho na união com que os minutos se desfaziam à nossa frente, quando concertadamente fazíamos tudo para que o tempo não saísse do círculo concêntrico de copos de gin que se esforçavam em acompanhar o ritmo frenético do póquer. O ar era cinzento, porque o queríamos. As coisas não eram coisas, mas sim insignificâncias, porque não fazia sentido qualquer outra coisa. E assim permanecia a lufa-lufa indiferente de tratar as frases que debitávamos pelos nomes opostos ao que elas aparentavam ter. Até que fomos passado. Aconteceu num fim de tarde diferente. Ligeiramente diferente do tique-taque insano do tempo que nada fazia. Faltou-nos a voz. Deixámos o amor, para ter a parcimónia como nota de rodapé da forma como nos gostávamos. Entre abraços chorámos sem lágrimas. Escrevemos poemas para que aqueles momentos se esgotassem e assim pudéssemos ir mais cedo para casa procurar abrigo nos quartos de chumbo onde nos consumíamos ao som de bêbedos melódicos que ainda eram quem nos mantinha vivos. Ficámos, na realidade, os mudos da rua. E assim foi o compromisso de nunca mais voltar a falar. Indecifravelmente incapazes de decidir por algo diferente, assim se fechou o pormenor que torna tudo isto assim tão incolor como a chuva que pinta de sem cores a rua que serve de cama à inocência morta de saber que a vida pesa, porque se desfaz em equívocos....
"Ensinou-nos muito mais do que devíamos aprender, mas ensinou-nos acima de tudo que nenhum lugar da vida é mais triste do que uma cama vazia." (Crónica de uma morte anunciada, Gabriel Garcia Marquez)
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