8.8.10

Texto #93

Não serei por eles mais que o som. Os que cá ficaram, nada me dizem. Os que partiram, deixaram a memória. Foram como árvores a cair mesmo que ninguém as tenha ouvido. Ficou um peito cicatrizado e em chaga como o que carrego até o último suspiro mo tirar. Vi tudo quando a transformação era ainda simples. O vento soprava sempre do mesmo sítio. As coisas deformavam-se à medida que o homem as abandonava. E as pessoas conseguiam ser felizes pensando que dão à luz outras pessoas que também querem vir a achar esta passagem como uma experiência que valeu a pena. Tudo mudou quando o mundo pareceu abraçar a sombra. Deixei de ser o social, e sou agora o anti qualquer coisa a mais que eu e os meus. Desgosto de dizer que o futuro somos nós todos. E andar a evitar as gotas de chuva ácida que o céu teima em tombar sobre nós faz de mim uma invisível sombra do que fui.
E foi como conheci quem tentei sempre ser. Um dia contornava a mesma rua, evitando os olhos de morte do aglomerado indiferente de arrotos estridentes, quando me deparei com a certeza de que era eu que pairava assim, ao som do bailar de uma flor morta.Foi o som a despertar sons, e depois a trazer lágrimas de emoção, e no fim a deixar-me incrédulo no que não conseguia perceber. O belo nunca tinha sido tão imprescindível. O feio perdia cores. As certezas do fim, irremediavelmente travestiam-se de raios incólumes de luz do bem.
Sentei-me a escrever o que sentia na ardósia dura do alcatrão, para sair a reflexão mais dura de sempre sobre o que os homens querem do futuro.

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