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13.1.10

Sem título (17)


Disse,
parto tudo se não
me fizerem a vontade,
chamo-me cereal,
coisa pouca nesta chuva
de sangue que
encanta a rua,
fazes assim,...



inflacionas as coisas
para te achares bem,
e no fim o silêncio,
e o quente bom de
cheirar mal nestes
lençóis de frio lá fora....

25.4.09

Regresso III


Se toda a gente fizesse como eu, e achasse a vida assim tão displicente quando vista de esfíncter aberto,...não havia bebidas gaseificadas.

26.6.08

Mónico Leu o Whisky


Melena cor de chumbo,
pôpa, mulher, pôpa,...
e um pinguinho de condicionante,....

Saia com baínha,
que íman com ladaínha!!!
Nódoa, mulher, nódoa,

Transparente, em azul,...
Nódoa que joga na névoa,
com rimas de mau prestador,...
Serve-o, mulher, serve-o,...

Conselhos:
Pedra-pomes,
Pensos,
Gravilha,....

Joelho sofre,
carteira ganha,
honra?....

Como tremoços ao pequeno-almoço...
Nunca palmadinhas nas costas.....

15.4.08

A Lagarta


Caso a alma pese mesmo 21 gramas, Manolo vai matar-se. Assim como assim ele já não tem razões para viver. Perdeu o lugar de Pastor na Igreja, levou um tiro na barriga da perna direita, e começa a acreditar que o mundo não é quadrado. Sim, porque os ciganos avaliam tudo na perspectiva da linha recta até à curva, sempre em frente até ao entroncamento, e depois virar à esquerda. Manolo está farto. Quer saber a que sabe o interior da caixa de espinhos de um ouriço.
E não, nem pensar, de forma nenhuma, assumir como possível que as feiras devem fechar logo depois de almoço. Aliás, Manolo acredita que só quando dançar uma rumba melancólica, é que vai assistir ao renascimento do negócio tradicional cigano. Neste, ou no outro mundo.
Aquele peso no peito é que não o larga. É uma coisa farta, que enfarta, e que desgraça. No outro dia, Manolo estava sentado no banquinho de verga que todos os fins de semana encosta à banca,...Aqueles momentos em que é preciso recuperar o fôlego, e pensar no que fazer para o jantar. Num instante de segundo, quando passava os olhos cansados pela contracapa de um DVD, leu que a alma tem peso.
Vinte e uma gramas será, mais coisa menos coisa, o peso de uma lagarta. Daqueles bichos que se juntavam ao guisado que ele comia no acampamento, quando era catraio. Encarquilhadas e gosmentas, se calhar vivem a dormir durante a existência de uma pessoa. E, de um momento para o outro, entram pela boca do estômago e transformam-se em solitária. Caiu um dente a Manolo, e nasceu-lhe uma verruga no fundo das costas. Será porventura o animal a armar-se em esperto.
Liberta, a única ‘romani’ da história de olhos cinzentos, que só não foi deserdada porque dá uns ares a Satanás, diz-lhe que ele abusou dos torresmos. Manolo acredita, mas dá o desconto. Liberta é daquelas mulheres que se desfaz ao toque. Seca por fora, seca por dentro, e só apetece abri-la para ver se tem lagarta. Enfarta não saber se se é homem, ou se se é uma aberração. Deus parece ter sempre uma especialidade escondida na manga, e o cigano é a cobaia.
Diz que se se acender uma vela, e se espetar com ela no terreno lavrado de uma casa onde se tiver acabado de roubar duas cabeças de cavalos, o enfartamento passa. A lagarta morre, e tudo acaba.
Com um cigarro de palha numa mão, e um bordão na outra, Manolo desanima. Não é ladrão, por isso só morrendo é que vai saber quanto pesa a lagarta. Se tiver as tais 21 gramas, ainda poderá dar para Liberta adoçar o guisado que vai fazer a seguir ao funeral.

27.3.08

Bad morning blues



Ladra cão curioso,
Bale ovelha teimosa,...

Morde cão feroz,
Morre presa fácil,...

Bate homem que zela,
Foge cão coxo,...

Desfaz-se nuvem negra,
Corre homem nu,...

Pinta híbrido erecto,
Topa molhado fugitivo,...

E o sol nasce,...

Mundo a ouvir,
Voz nova de falsete....

7.3.08

O bairro do amor...

O Amor tem destas coisas, mas ele só a tem a ela. Está descansado porque julga do alto da sua superior ignorância, que não precisa de mais nada. Um amor, uma cabana e como brinde de promoção de lançamento, uma canção do José Cid.O narrador exemplifica de seguida um trecho de pensamento que sai da cabeça primária de semelhante criatura:
“Este amor que nos une é imenso, só comparável ao que devemos ao Banco, ao Sr. Do talho, a duas ou três empresas de concessão de crédito em vinte e quatro horas. Por ti deixei a casa da minha mãe em Marvila e nunca mais me recompus. Sinto falta da carne guisada da matriarca cozinhada na panela encardida e das vizinhas aos apupos pela manhã quando estendem as ceroulas dos respectivos. Por amor mudei de vida. De Marvila, fui para a Rinchoa e posso dizer que estacionei o meu carro com mais facilidade. A vida corre-me de feição”.
Por ela, o jovem trocou o Citroen dois cavalos, uma viatura típica de solteirão invertebrado, sedento de engatar miúdas do bairro desprevenidas e com eco na cabeça, por um confortável Renault 19 azul metalizado em bom estado de conservação tirando a panela de escape rota.Ela adora o carro, e é vê-la acenar quando passa pelas vizinhas que olham alertadas pelo ruído ensurdecedor da viatura familiar. Até já prometeu escrever um poema sobre a viatura, com enfoque nas fantasias eróticas que lhe desperta o tecido roto que cobre o banco traseiro do veículo.
À primeira vista, parece que os pequenos buracos, com meio centímetro de diâmetro, espalhados pelos dois metros quadrados de pano verde azeitona, deverão ter sido feitos com pontas de cigarro em brasa, quiçá apagadas na pele suada de uma jovem que perdeu a virgindade dentro daquele espaço apertado. Uma mancha de um vermelho sangue, timidamente perdida perto da porta traseira do lado esquerdo, permite traçar conclusões nesse sentido.Ele concorda com tudo. Até se a fantasia em causa, que ele pensa já ter percebido mas da qual compreendeu apenas a parte sexual, puder ser realizada, melhor ainda.Ela garantiu que se as coisas derem em casamento, o pai, um estivador com 152 quilos de peso, mas perto da idade da reforma, vai exigir o tradicional.
As coisas poderão ser resolvidas graças ao médico de família da freguesia, que em princípio estará na disposição de passar uma credencial a atestar que os três ainda estão no sítio onde devem estar.Mas, para já, isso são futuras núpcias. O matrimónio, ele respeita, até porque um homem tem de assentar algum dia. Só que isso, a vir, que venha num futuro distante. Para já, ele quer é arranjar uma câmara de filmar digital, e abrir o livro da criatividade. Aos fins-de-semana, na esquina da rua onde fica a sua nova casa, dois irmãos de bigodes fartos, e de persistentes roupas negras, vendem artigos electrónicos durante períodos de dez minutos, intervalados apenas pela chegada das autoridades policiais. No sábado que vem, ele já prometeu a si próprio que se irá levantar cedo, comprar a coisa mais baratinha que encontrar, e levar a rapariga para a Serra de Sintra.
Sempre quer saber se uma mulher ingénua, quando se abre, dá melhores close-ups do que as rameiras da esquina. Até pode ser que a cena toda dê um filme caseiro, com banda sonora do Cid, claro está….

2.3.08

Castro, ou a maneira complicada de dizer algo simples

Castro, o agonizado pedaço de matéria carbonizada, descansa como um átomo de paz encastrada na natureza em decadência. A suave brisa nubente, que traz consigo o pavor de noites enregeladas pelo desvario da solidão, esmaga um sorriso enevoado e basso que lhe pende no canto viciado da boca.
Castro é o pedaço mais franquiado da pesada herança mastectomizada da verve humana. Sua com laivos de despudor face à contingência de ablação do orgulho minimalista que lhe escorre da alma.
Uma música construtiva, em cadência de destruição de raciocínios, flutua monocórdica de um pequeno transístor que segura entre dois dedos. A lágrima mais crítica, a infundada razão de um final de vida em fogo fátuo, rola pela face carcomida de pessoa feia.
O odor da amizade perdida, perquire a personalidade de quem espera fundir-se com a inevitabilidade do carcinoma da natureza perspicaz. Um par de pupilas protuberantes fixa o horizonte, procurando respostas para a face negra do esvair de perspectivas.
Castro não é quem pensa. Disseram que a vida que sempre guardou em fusela empedernida, se esvaiu no maço do calcete da ignomínia. Traiu, e foi abjurado em público por criaturas embebidas numa animalidade onomatopeica. Castro vendeu a existência vicentina de servidor da causa desumanizada do ajudar o próximo, à tentação do apascentamento das almas suezes. Narinas abertas aos odores recalcitrantes da planície endeusada, e um novo ser se ergue com certezas inabaláveis.
Castro tinha sido traído por um abstergente pedaço de confiança calculada levianamente, e agora, rendido a assassinadas ondas de resignação, deixa a estiagem banhar-lhe uma garganta humedecida pela vergonha.
Castro decidiu. Venderá a alma minimalizada aos adventos do futuro predeterminado pela sorte. Vê-lo-emos a oscular os lóbulos enrijecidos de uma abstracta criatura de esquina. Castro onaniza-se, para uma ocupação de futuro mais pompeado.
Será traveca....

27.2.08

Almocreve

Escarrou um perceve,
A garganta suja do Almocreve,
Parido por uma mãe tinhosa,
De passagem pela Carpalhosa...

Recheado de pães mornos,
Aquecidos em velhos fornos,
Tresmalhava o avental,
Da moura quase intelectual...

Malvado a níveis técnicos,
Almocreve dos 'quês' hipotéticos,
Desgraçou a menina assoberbada,
Que almoçava quilos de rabada...

E o fim do mouro malandro,
Esvaiu-se em lamentos num calhandro,
Que o progenitor da petiz desonrada,
Assoberbou na criatura aluada...

21.2.08

Sem título (36)

Bolsa de baba.
Pessoa a enrolar,
Comiseração em bisnaga...

O Arcada a abater,
O cálice a chocalhar,
No colete a feder,

Vejo-te amargo, Fernando,
Cruza as pálpebras escaldantes,
E eu aqui acalentando...

Pessoa na falsa mensagem,
Fundaste um sentir,
E a palavra que dá fogagem..

19.1.08

Vivam os pombinhos!!!


Vivam os pombinhos!
Verso atirado para o ar,...
Saiu um vento, e as rosas assentaram,
Os pombinhos que se danem,
Numa orgia de repulsa,
É o arroto que nos vale,
Será o peido com molho a prevalecer,
E o deboche, servido com morango?
Vivam os pombinhos!
Ai que linda vai a noiva....

11.1.08

Se John Rambo não tivesse aceitado regressar...

Coronel Trautman (CT)- John, o mundo livre precisa de ti.
John Rambo (JR)- Coronel, e eu preciso de quem? Já se lembrou disso?
CT- Não estou a perceber John.
JR- Desculpe, meu coronel, mas eu encontrei-me.
CT- John, desiludes-me. Washington tem uma missão para ti, e o Presidente só confia nas tuas capacidades.
JR- Coronel, conhece o sentido da vida?
CT- Estou a ver que estás fechado neste pardieiro há muito tempo. John, diz-me. Que desafio é para ti bater em tailandeses.
JR- Com o devido respeito, coronel, se o senhor não me responde, respondo eu...
CT- Estás a mandar-me embora, é isso?
JR- Não senhor. Basicamente não falo com ninguém há três anos, e tenho uma coisa atravessada na garganta.
CT- Penso que ainda sou o teu único amigo, sargento. Por isso, fala. Estou a ouvir.
JR- Coronel, a solidão ensinou-me que sou gay.
CT- (...)
JR- Não tenho mais margem para enganos. O amor encontrou-me, e eu não o vou desiludir.
CT- Bem, se o melhor homem que eu alguma vez tive até já goza comigo, nada mais tenho aqui a fazer.
JR- Não, meu coronel. Penso que me conhece o suficiente para saber que não sou homem de brincadeiras.
CT- (...)
JR- A vida é curta, e eu adoro o som do vento a marcar o compasso.
CT- Adeus John, pensei que fosses mesmo meu amigo.
JR- E sou, meu coronel. Por isso tenho de dizer não ao que quer que seja que me fosse propôr.
CT- Os russos esperam-te, John.
JR- Não, coronel Trautman. Russos na minha vida, nos dias que correm, só os pêlos dos sovacos.
CT- Porque ficaste assim?
JR- Comecei a ouvir a versão asiática dos Backstreet Boys. É a única coisa que aqui se ouve. Todos cumprimos um voto de silêncio.
CT- Pois então que sejas feliz,...
JR- Estou a tentar sê-lo, meu coronel. Penso até em casar. Ele é japonês.
CT- Não quero saber. Adeus John.
JR- Posso mandar-lhe um convite para o casamento, coronel?
CT- (...)
JR- Homofóbico!!!!

9.1.08

Prosa Quente...


O cão é inteligente. É uma pena que seja indolente. Talvez até seja boa gente. O problema é que nem tem frente. Ninguém diria realmente,...mas o animal perdeu-se tristemente. Mordeu um gato indigente.
Que se voltou a ele ferozmente. O rabo caiu-lhe, e o coto ficou dormente. As orelhas tombaram circularmente. O corpo pediu toda a paz e, sinceramente.... Deus estava num dia carente. Pediu o amor daquela criatura em tom pungente. Em troca, recebeu um olhar pintado negativamente. O cão é ateu,....não registou qualquer dúvida premente.
Talvez aceite um funeral feito singelamente. Nada de flores oferecidas pedantemente. Amor em doses produzidas industrialmente. O último suspiro, como é evidente, será dado a remar contra a corrente. Felizmente.

5.1.08

Uma questão de tamanho

O estabelecimento era antiquado. Pouco mais de 80 volts conjunto de luz, pintavam de dourado adormecido paredes que já foram pretas, mas que hoje escapavam para um cinzento assustado. Quatro prateleiras brancas dispostas em quadrado, traçavam diagonais com uma caixa registadora geometricamente colocada no centro do estabelecimento, e onde se sentava o dono.
Trata-se de uma mercearia registada em todas as conservatórias necessárias à legalidade vigente, implantada no centro de um bairro respeitável, e gerida por um senhor honesto. O homem já foi José, já foi António, já foi Silva. Agora responde apenas por vizinho.Agora é uma previsão optimista, porque o estimado comerciante em causa está internado no Hospital da Divina Misericórdia local, lutando contra um surpreendente entupimento de artérias. A coisa aconteceu na rebentação de um dia igual ao de ontem, e previsivelmente semelhante ao seguinte.
Vizinho esperava o fim da informação desportiva, religiosamente recitada do interior de um transístor que resistia às agressões violentas do tempo. Mal a voz terminasse, e a corriqueira publicidade ao restaurador Olex fosse posta no ar, a caixa registadora seria encerrada, o dinheiro feito no dia colocado numa pasta de cabedal, e o estabelecimento encerrado.Mas o relógio pareceu mais lento naquele dia. Os ponteiros esperavam o inevitável, e o inesperado aconteceu mesmo.
Um ruído agudo, antecedeu outro exactamente produzido no mesmo tom de decibel. Vizinho estava de costas para a entrada, e quando a pachorrenta movimentação de pescoço que efectuou chegou ao fim, pôde constatar uma presença sumida. Parecia uma mulher, mas as indicações genéticas enganavam. Homem não era, porque ninguém de respeito pinta uma cara esquálida com o que mais de berrante a indústria cosmética consegue produzir. Por isso, na dúvida, trata-se com o devido respeito.
O meio salto de um par de sapatos vermelhos-sangue ecoava, em tom arrastado, ao longo de toda a área do estabelecimento. Completada uma volta inteira ao perímetro do quadrado, a cliente parou junto à caixa registadora, e numa voz sumida questionou:- Tem tampões?Vizinho sentiu-se embaraçado. Mas o devido respeito a um empresário obrigou-o à saudação da praxe. A um boa tarde da ordem, seguiu-se o mecanizado:
- Sim, minha senhora. Estão na prateleira em fundo de loja, no canto superior direito. Mesmo debaixo dos cotonetes.
A uma questão indolente, seguiu-se uma observação pintada de inesperado:
- O senhor não me está a perceber. Eu quero tampões para uma situação especial....
O narrador sente necessidade de apressar o final da história. Duas nuvens irritadas zangaram-se no topo da pirâmide geométrica que regulava a vida naquele bairro, e abriram caminho a um chuvisco persistente. Vizinho sentiu o impacto do rigor meteorológico, que lhe fez nascer a necessidade de apressar a conversa mas,....
infelizmente,....
não conseguiu.
Seria um ser humano quem praticou o seguinte acto. Não há certezas, mas os indícios assim o fazem prever. Num movimento sincopado, quase próprio de uma goiabeira da selva das Guianas, montada por uma preguiça centenária, a senhora que chegou, por momentos, a merecer o respeito de vizinho, abriu os jeans azuis ruçados que trazia.
Ao desenvencilhar do botão, seguiu-se uma estridente via sacra do ‘zipper’, e a inesperada revelação de uma monstruosidade demoníaca.
Duas grandes bolsas de carne acompanhavam a curvatura esquálida das coxas amareladas, e tilintavam junto das rótulas pintadas por uma psoríase asquerosa.
- Como vê sou avantajada, senhor....
Esperamos todos as melhoras de Vizinho. Os problemas cardíacos não podem impedir um estabelecimento comercial respeitável de contribuir para o bem de uma comunidade.

Ruminâncias Poéticas...

Pústula friorenta na pele em chaga,
É poesia,
Receio do mar, em dia de neve,
Pode ser poético,
Amo-te, só quando és homicida,
Sonetos garantidos,
Bêbedo conveniente, em dia de funeral,
Quadra popular,
Junta tudo num pote, deita leite,
Recorda os dois olhos bons do Luís Vaz,
E continua a tentar,
Ainda não és poeta,
Mas podes vir a ser...

4.1.08

Diálogo entre desconfiados II

- Só gosto de andar direito, e respeitar a curvatura da minha espinha dorsal.
- Por isso tens gases.
- Até tenho. Mas juro-te que se tu continuas a apresentar-me como um selvagem disforme, sacana, e incapaz de controlar as funções vitais, vais conhecer a curvatura das minhas falanges.
- És um ser que se esquiva às críticas, como a caça se furta aos chumbos das caçadeiras.
- Sou um homem realista. E ai de quem me apontar que não respeito aquilo com que me comprometo.
- Pois. Ai de quem se atreva. Tu brindas a pessoa com um gás, certo?
- Olha, vai ali à esquina onde vês a velhinha, e constata se eu lá estou.
- Não estás, porque antes disse vais ter de ir à casa de banho. Estás com gases.
- (silêncio)
- Pronto. Toquei-lhe no regulador de emoções mal contidas.

Diálogo entre desconfiados I

- Se eu fosse o maior hipócrita do mundo, o que achas que ganharia com isso?
- Dores de cabeça, um peso na consciência, e flatulência.
- Achas mesmo? Afinal de contas não é para os desentendidos que estão guardados os maiores prazeres da vida?
- Não creio. Experimenta a fechar um olho, e a corrente do desespero arrasta-te sem compaixão. Além disso, ficas com gases.
- Eu tenho uma reserva de frases de compaixão para quem me quer prejudicar.
- Isso não chega. Se com frases, matas a intenção, elas não servem para matar a repetição do desejo de fazer mal. E os intestinos sofrem sempre.
- Até hoje nunca me dei mal em fingir uma bondade inerente, e praticar um cinismo pausado. Sempre com um truque na manga.
- E nunca fizeste colonoscopia de nenhum tipo? Podes comer citrinos? Não te dás mal com feijoadas?
- Mas porque insistes tanto em querer saber sobre os meus hábitos de defecação?
- Ora, porque tenho uma teoria. Quem anda sempre com a faca escondida na manga, sofre dos intestinos.
- E acreditas num disparate nesses devido a algum trauma de infância?
- Não. Simplesmente consigo discernir a postura das pessoas que, como tu, não são de confiança.
- E o que tenho eu de diferente, por exemplo, daquela velhinha que vai a dobrar aquela esquina?
- Essa rigidez de movimentos que apresentas não é natural. A senhora, coitada, perdeu a luta contra a artrite que lhe destruiu as articulações.

1.1.08

O macaco

O macaco acha-se importante. Quem lhe der um dime, põe-no a debitar palavras ao ritmo de uma kalashnikov bem oleada. O macaco sabe andar. O macaco veste fatos Armani. Até é capaz de atrair a Florence Nightingale que há em si, e com certeza que também em mim.
O macaco tem planos.Fugiu do destino símio, e escapa-se das barrigadas de amendoins como os fariseus da porta do templo. O que o macaco quer é um bocadinho de atenção. Educaram-no para ser bípede, mas ao mesmo tempo para não desiludir os quadrúpedes. Vive a vida sem nunca olhar para trás, e atenção aos tapetes.
“Eles não podem levantar pó”.Mãe macaca, versículo 1, capítulo 9. O livro sagrado do macaco já foi traduzido em várias línguas. Experimentem a lê-lo, ao mesmo tempo que almoçam uma diet-coke e um mega cheeseburger. A desilusão é cenário que nem sequer se põe. O caminho do macaco é ascendente. Cuidadosamente sobe a escadaria da imortalidade. Mas que ninguém acuse o macaco de discriminação racial. Ele adora a humanidade.Vive todos os dias com o ouvido colado ao transístor que marca o compasso do coração do planeta.
Do alto de um metro e meio bem suportado pelos tacões de um par de sapatos do mais puro cabedal, o macaco já discursou até no púlpito da Assembleia Magna da raça humana. A imagem de marca do macaco foram os cantinhos da boca bem arqueados. A melena grisalha afasta-o do espectro do ridículo. O macaco assume a batuta, e hipnotiza a audiência. Reclama dos desvarios da audiência. Quer instituir a religião de quem não espera nada da vida a não ser uma leve corrente de ar entre as orelhas.O macaco cede só no ataque à injustiça.
Grita aos amigos humanos que a fera, o ‘chupa-cabras’ da liberdade e da democracia não tarda a consumir-se numa chama infernal. Há quem o ouça com atenção. Há quem repare no fato Armani. Há quem nade no lago da inveja. E há quem se levante e saia da sala.O macaco não liga. Continua a falar. A Assembleia Magna da Humanidade tem de ser convertida. O macaco esbraceja, e aponta o caminho do futuro. Aplausos de médio tom acompanham o final do discurso. No final, como recompensa, o macaco só pede o almoço em rebentos de soja.
O macaco evoluiu. Atingiu o pleno equilíbrio nos tacões de um par de sapatos de cabedal. Só lhe falta é acabar com quem tem o desvario de pensar à margem do livro sagrado da mãe macaca.
Nota do autor: Fábula texana sobre o mito do macaco. O folclore local preza-o como o representante máximo da evolução humana. Ao que se fala, trata-se de um ser que conseguiu eliminar correntes de ar cerebrais.

27.12.07

Amores e Outros Horrores...


Permanentes são as dores,
Sucintas de mil cores,
Que o diga a Maria Dolores,
Mulher que defeca flores,
Na praça central de Mogofores,
Ao rufar de mil tambores,
Libertando gamas de etéreos odores,
Engarrafados em vidros das Comores,
E despachados mercê de favores,
Da plêiade de senhores doutores,
Que vivem da exportação de rumores,
Dissertando pelos corredores,
Até se esvaírem nos furores,
De uma existência sem clamores...

26.12.07

Arco-Íris, Inc.

O Branco é amigo do Preto. O Castanho está unido por ligações sentimentais ao primeiro, mas nada o liga ao segundo. O Azul tem tendências suicidas, e vê no Verde um refúgio de serenidade cada vez mais raro nos dias que correm.
Os dois já se envolveram com o Preto, mas perante o Branco sempre o negaram. O Roxo espera por uma oportunidade para pedir emprego ao Castanho, que assume funções de administração na empresa de obras públicas do Amarelo.
O Branco é quem verdadeiramente dá a cara neste negócio, e fala-se que poderá ver com bons olhos um take-over feito pelo Rosa. A suavidade de temperamento deste último é vista pelo Azul como uma potencial ‘mais valia’ numa ligação meramente profissional.

A importação de água de um mar cuja localização ainda não foi tornada pública, parece ser o ramo em que o azul melhor se movimenta. A personalidade densa que o caracteriza é, segundo os analistas, a adequada para uma correcta gestão da multinacional.Uma empresa de consultoria, fundada pelo amarelo, poderá ter sido contratada para atestar a veracidade destas constatações. Por trás deverá estar uma Oferta Pública de Aquisição feita pelo Ciano, que desesperadamente luta por se manter à tona de um negócio onde o Branco ainda dita regras.
O Ciano partilha o tom com o Lilás, e é considerado perigoso. Numa desordem alvejou a tiro o Branco, que por ter corrido perigo de vida, reforçou o seu estatuto neutral. O relatório de tendências no arco-íris aponta para um futuro menos denso. O esbatimento de funções é visto com desconfiança.

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