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29.12.07

O Velho dos Sete Cães

Menor manifestação da razão humana, vezes maior fenómeno da bestialidade religiosa, igual a saída da missa das sete na Igreja do Barrio de Las Hermanas, em Tegucigalpa, Honduras. Mais ou menos mil pessoas, todas residentes na isla de la paloma, bem no centro da capital, convergem diariamente, à mesma hora, para aquele local.Maridos e mulheres. Apêndices entre os 2 e os 10 anos pela mão de cada um destes casais. Dezenas de apêndices. Velhos mal vestidos, enrugados, e de bengala. E exactamente sete cães. Pertencem todos ao mesmo dono. O general Juan Freischel. Dizem que o velho é nazi. Perdão, foi nazi. Porque ai de quem lhe recorde que ele nasceu na Alemanha, no ano de 1922, e que com 16 anos andava a aplaudir um austríaco frustrado no campo zepellin de nuremberga. O senhor nega.
Diz que é mentira. Ele é apenas filho de alemães que, por "necessidades inalienáveis", tiveram de viajar até às Honduras. Nasceu filho único, chegou a um novo mundo como filho único, e fez-se à vida como filho único. Bem, isso é o que dizem as pessoas. Porque ninguém sabe muito sobre o senhor. Apenas que ele gosta de cães. E faz questão de mostrar isso. Os bichos são é dificil de definir. Feios, baixotes, gordos, patas minusculas. Para andar da porta de casa, ao jardim onde o 'señor' os leva a passear, chegam a demorar uma hora. E quando pára um, param todos ao mesmo tempo. O velho deixa um rasto de merda atrás dele. E depois, já ganhou os hábitos dos hondurenhos.
Apanhar aquela mistela, é que tá quieto. As pessoas dizem mal dele, mas depois acabam por fazer o mesmo. Toda a gente já se habituou a ver aquilo. Há até quem fale que o Luis Sepulveda, o chileno renegado que vendeu a alma aos gringos europeus, costuma vir duas vezes por ano a Tegucigalpa só para ver o velho Freischel. O próximo livro pode ser sobre ele. Mas ninguém tem certezas. A história de vida do velho dava um bom livro. Disso ninguém tem dúvidas. É bom é que quem a queira escrever se apresse. O homem anda com uma icterícia esquisita. Qualquer dia fica-se....

28.12.07

No dia em que Eva morreu

A 26 de Julho de 1952, o dia em Buenos Aires amanheceu quente. Terrivelmente quente. Assustadoramente abafado. As testas dos senhores eram pequenas para esconder gotas de suor que, indelicadas, não tinham qualquer pudor em mostrar-se. As damas da alta sociedade da capital argentina tiveram de deitar para o lixo o pudor. As habituais golas brancas, foram substituídas por leves camisolas de seda, de decotes tímidos, e sem mangas.
Passos acelerados, e olhares fixos no chão, marcavam a atitude das almas femininas que se passearam nas ruas naquele dia. Premonitório, dizem uns. Eu acredito. Foi o dia em que Eva morreu, e eu estava num consultório médico. no centro de Buenos Aires. Perdi o andar. E logo eu, que na altura dependia das minhas pernas para tudo. O Pablo da Calle de las Palomas a coxear. Parecia impossível. Na altura era carteiro, e o raio de uma unha encravada tirou-me a locomoção. Recordo-me das dores insuportáveis.
Começaram um dia. Chovia a potes, e eu vinha para casa, vindo do trabalho. Chutei uma pedra. Pareceu-me pequena na altura. Só que era dura que nem cornos. Senti logo a unha grande do pé esquerdo a rachar. Os dias passaram, e piorei. Toda a gente que conheço tinha-se habituado a ver-me percorrer as ruas da capital, a passo acelerado. E naquele dia, manhã cedo, tiveram de ser os meus amigos Juan e Vasco a amparar-me até ao consultório de 'El doctor'. O velho tinha fama. Tinha várias especialidades ao mesmo tempo. Quando era preciso arrancava dentes. Sempre que necessário, receitava uns comprimidos para as dores de período das madames. Naquele dia, teve de me aturar a mim.
O meu pai foi doente dele, o meu avô andou com ele na escola. Aliás, o velho era mas é bom de mais. As pessoas até gozavam um bocado com o coitado do 'señor' Péron, como ele gostava de ser tratado. Para todos os efeitos, gritava aos sete ventos que tinha aberto o consultório com a mãozinha amiga do general presidente. Mas todos sabíamos que ele nunca tinha estado com o sacana do fascista. Quer dizer, um dia, há muitos anos, foi atropelado pela limusine dele, à saída do Palácio Presidencial. Ele recordava esse dia como uma experiência religiosa. Garantia que tinha conhecido Deus. Partiu as duas pernas, ficou em coma dois dias, e o Rolls Royce do fascista nem parou. Mas o velho ficou em êxtase.
Quanto a 'La Santa'. Bem, o doutor Péron adorava arranjar os pés às senhoras, desbobinando como conhecera Eva em La Plata, quando esta não era ainda mais do que uma adolescente namoradeira. Aliás, no princípio dos anos 40, quando o mundo fervia na loucura da guerra, e o doutor Péron ainda se chamava Diego Simón, rezam as fontes históricas do velho que foi ele quem apresentou Eva a 'El General'. Está bem que este é um episódio da história argentina que nunca chegou a ser inscrito nos livros. Mas na calle de los combatentes, no centro de Buenos Aires, ai de quem se atrevesse a pô-lo em causa. Maria Eva Duarte era a menina dos olhos do doutor Diego Simón 'Perón'. E no dia em que o cancro nos ovários finalmente a venceu, o doutor preferiu nem sequer ouvir as notícias.
Aliás, quando Eva deixou de aparecer em público, consumida pela maldita doença, o doutor Diego isolou-se do mundo. A morte da sua deusa era anunciada, mas o tempo para ele, parou. O doutor saía de casa de manhã em passo acelerado. Tomava o primeiro autocarro que conseguia, evitando todos os quiosques onde se pudessem ler os escaparates de jornais ou revistas. Quando lhe parecia ouvir o suave roncar de um rádio a aquecer, acelerava, e desviava-se para bem longe. As conversas, para ele, foram, a pouco e pouco, desviando-se da realidade. Com as senhoras, trocava impressões sobre o tempo, e sobre os vestidos da primeira dama norte-americana, que sempre considerou uma verdadeira senhora.
Com os senhores, não se atrevia a falar de mais nada que não do Boca Juniores. Aliás, quem sempre o conheceu, pensou que o doutor Péron fosse um pouco, a modos que, abichanado. Logo, completamente avesso a futebol. Mas ele viu 'La Bombonera' a ser construída, e costumava dizer que o seu coração seria azul e amarelo até ao dia em que desse o último suspiro. No dia em que Eva morreu, eu vi um doutor Péron desligado da realidade. A Argentina parou, mas ele não. Continuou a viver, e não verteu uma lágrima. Transformou-se num autómato. Eu continuei com o No dia em que Eva morreu, o doutor Péron, foi parar ao hospital. Não mais de lá saiu. Os médicos dizem que nunca tal tinham visto.
O seu coração diminuiu de tal forma, que simplesmente parou. O doutor Diego quis morrer calado. Lá fora, a Argentina chorava. Ele nunca o conseguiu...

25.12.07

Portugal, Idade das Trevas


A pegada do homem das botas,
Deixa marca na terra molhada,
Cheira a indolente odor de carvão,
O fogareiro afoga o imóvel,

Uma família sobe no incerto,
Exigindo menos difusão do futuro,
Uma mulher doente diz-se mãe,
Aos beijos dos filhos,...
..., responde com amargura,
O pai, homem das botas,

Cansa o cansaço para sorrir,
Ladra a alegria da casa,
E chove a frustração do pouco,
“Pai, tenho frio”
“Mãe, estou triste de estar triste”

Quatro pares de olhos choram a impotência,
E forjam a alegria do falso,
Portugal, idade das trevas,
O senhor presidente do conselho vem à terra,
O Coreto vai ter banda,

E o homem das botas,...
..., crava ainda mais o pé na terra molhada...

24.12.07

Sonho


Desembarco na Esparta renascida,
É o lúgubre frio da noite que me recebe,

Ondas de sinistras demonstrações de abandono,
Envolvem a fraca batida cadavérica,
Apoio, encontro em restos de fulgor feminino,

Assombros de uma beleza belicista,
Arrastam uma carcaça na névoa,

O grito da invasão ao futuro,
Hordas de homens de armas mugem impropérios,
A impavidez da descrença toma-me refém,

Tocado pela toga de Xerxes,
Abençoo o desejo de cavalgar,

Levantar voo, e desafiar Zeus,
Caem chuvadas de sangue fervente,
Caminho na Esparta renascida,

Libertei-me dos grilhões da morte prometida...

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